Não importa o que os outros estão dizendo, as palavras que elegem para dizer. Augusto Hendricus não usa as palavras como quem diz, mas como quem grafa, grava, imprime, crava, como se a palavra fosse fração de matéria antes de ser instrumento de ideia. E aí sim: um signo leva a outro signo, pede outro signo e pode mesmo implorar por outro signo, já que é o signo mesmo que descobre o drama de seu movimento próprio. Aquilo que ele, o signo, precisa para viver. Para multiplicar sua paixão por, agora sim, ser coisa e fazer o mundo que lhe cabe, e que apaixonadamente poderá extrapolar, verso a verso, prosa a prosa, nos mistérios que esta cosmogonia despertará.
Não será ordinária esta leitura. Nesta primeira coleção de poemas publicada, Fantástico cardiovascular, Augusto introduz a natureza de seu vocabulário, um idioma português paralelo que nasce e morre na luz e nos truques de vista que a luz faz sobre quem vive e sobre aquilo que vive, e que morre para reviver. Brotam jasmins por todos os lados. Prata e ouro são descobertos em meio a sendas, brechas e escombros. O mundo de Augusto tem pele, tudo tem pele no mundo. Tudo há de ser luminescente, mesmo nas noites que recorrem, mesmo com o êxodo que recorre às noites. O autor escreve: “o manto anuncia a graça”, compreendendo que poema é modo de abençoar a percepção — ou de fazê-la sangrar? Gravurista, costureiro, observador e fazedor de artefatos, o Augusto escritor põe-se a si mesmo a tarefa com o objeto letra, cimentado e movediço, que emprega com rara verdade: “nosso destino é lavrar a Pedra, chorar a Pedra, cantá-la, degluti-la, dar contorno ao Verbo.”
E, ao final, ao poema sucumbe: “obsessivo, quero ser seu objeto”. Ainda que elevado pela cruz, aquele que escreve não está a salvo do chão, nem fugirá dele. Deseja-o, obsessivamente: “eu caminhei pela superfície do sol”. Na paisagem concreta o poeta irradia, e faz do andarilho um iluminador de enigmas que vertem a experiência vivida em semiologia e em sêmen. Em Fantástico cardiovascular, o leitor descobrirá um trotamundos que cruza as ruas com ardores, temores e louvores, na altura idêntica que terão um bueiro e o alto de um viaduto onde, igualmente, o autor atesta “corpo e palavra como uma entidade findável, falível e eterna”. Por entre clamores e abandonos da voz-luz que vagueia, Augusto vai pouco a pouco nos conduzindo a poemas-carta que escancaram que o sujeito que vive terá amores e refúgios: “a cidade é muda / o mirante é nosso espaço seguro.”
Luís Fernando Moura