“Um dia tudo amanheceu vermelho no Brasil”.
Como no seu livro de estreia, a coletânea de contos Relógios partidos (Editora Litteralux, 2024), aqui Luiza Conde se utiliza do fantástico e do insólito para abordar temas urgentes de nossa contemporaneidade. O absurdo, afinal, se tornou um dos espelhos mais realistas da atualidade.
Vermelho está pouco interessado em oferecer explicações sobre o fenômeno que propõe. Pelo contrário, o fantástico aqui é tratado com pouco sobressalto, como ponto de partida para um exercício de imaginação do que poderia acontecer se, de uma hora para a outra, as pessoas no Brasil passassem a enxergar uma realidade vermelha, essa cor que se tornou tão maldita para uma parcela bastante considerável de brasileiros.
Mais especificamente, o conto se debruça na figura dos autoproclamados patriotas, aqueles mesmos que declaram seu amor ao Brasil aos quatro ventos, que glorificam a plenos pulmões a pátria e a nação, tudo isso enquanto desfilam com a bandeira dos Estados Unidos no 7 de setembro, batem continência para ela, vão para lá sem esconder o intuito de trabalhar contra o Brasil e os brasileiros.
O que fariam os patriotas, que não cansam de repetir que a nossa bandeira jamais será vermelha, diante da vermelhidão total? O que fariam se deixassem de ser bem-vindos nos países do dito primeiro mundo e estivessem irremediavelmente ligados ao Brasil, esse país que amam tanto nas palavras e bem menos nas ações?
Aqui, cabe um aviso. Para quem, diante do cenário que o conto propõe, espera mais uma distopia com trombetas apocalípticas tocando e a anestesia da impotência, saiba que não é o caso: Vermelho se recusa à banalização da distopia como inescapável, oferecendo uma imaginação de futuro possível, sem, no entanto, perder de vista a dureza dos tempos que vivemos ou cair em otimismos delirantes.
Vermelho é, em última análise, uma exortação à esperança sadia, ainda que árdua, da construção de mundos.