Estamos diante de um verdadeiro diálogo entre linguagens. O livro Trailer Frenesi — romance de estreia do poeta Fabio Santiago traz a forma do poema à frente da linguagem introspectiva, muitas vezes considerada fundamental na escrita lírica. Toda a ação se passa na produção de dois videoclipes de uma banda formada por três mulheres e um cara. A partir daí é incorporada a linguagem do cinema ao citar locações, câmeras, lentes, o clima e, inclui em seguida, a linguagem do meio musical. Revela, também, as canções que acompanham a aventura. Grande parte das ações se passa em torno do set de filmagem, o comportamento das integrantes, as relações entre elas, com o diretor e com os personagens trazidos pela trama.
Tudo isso faz parte da grande aventura que envolve Trailer Frenesi. Um romance policial, passado nos anos 1990, trazendo toda a liberação sexual conquistada a partir dos anos 60. É interessante lembrar que tanto o cinema, quanto a música foram meios fundamentais para socializar essa revolução. E, se hoje, o cinema encontrou um viés crítico-político, a música parece viver uma polarização, em que por um lado se boleriza (como dizia Tom Jobim) e, por outro, busca radicalmente suas raízes (com perdão da redundância) em busca não sei se da felicidade ou da fidelidade a uma verdadeira ideia nacional ou étnica. Enquanto isso, a literatura, que em minha opinião é a mais atingida pela idade e ideias digitais, tem no livro sua grande ferramenta tecnológica, ainda insuperável.
O livro de Fabio Santiago, intitulado Trailer Frenesi, é um romance sobre como manter viva uma revolução de ordem sexual. Ou, porque não dizer, desobedecendo a uma ordem que, a partir do século xxi, se viu renascida por um falso moralismo muitas vezes travestido de religião.
A sensualidade sem filtro do poeta invade os diálogos com a volúpia determinante para se tornar erótica. E, dessa forma, atingir um tom mais próximo da juventude dos personagens que se relacionam de maneira aberta, sendo fiéis a uma época em que não era usual se esconder por trás de câmeras, telas, monitores para declarar seus sentimentos, satisfazer seus desejos e revelar seu jeito de ser.
Fabio Santiago no romance Trailer Frenesi expõe para todos a essência do existencialismo — viver o que você acredita é revelar tudo que está encoberto pelo medo, pela timidez, ou por não saber que um dia as coisas aconteciam daquela maneira. E cada um se sentir livre para ser o que queria, gostaria ou sonhava ser.
Bernardo Vilhena