Antes que me digam que não tenho lugar de fala para escrever a orelha de um livro desses, já adianto: sou mineiro com ascendente em baiano, lua em Piatã, Vênus em Rio Vermelho, Marte em Tapioca e Lilith em Café com Cuscuz. Não nasci baiano, vulgaridade indefensável essa, que decidi contornar com uma migração no início do milênio, seguida de casamento e três filhos, paridos à luz de luas projetando seus tapetes prateados nos mares de Salvador e Serra Grande.
Pronto, agora posso falar de Leo Pessoa e seus molhos lambões.
Este livro me fez voltar ao cotidiano de que sinto saudades todos os dias. Leo consegue convidar-nos todos a pertencer a uma baianidade pouco óbvia, e ele só consegue fazer textos como os deste livro porque transforma seus passos pela cidade numa escuta atenta a cada broto de cena que se insinua aos seus olhos. A escuta é uma forma de estar no mundo que pede ausência de pressa para existir. Por isso, sugiro que você se relacione com Molho lambão com a mesma calma, escutando a leitura como uma bela novidade sobre aquilo que talvez você já conheça. Uma das belezas da crônica é voltar a morar nesse lugar onde a vida se deixa olhar sem medo.
A Bahia é um lugar de se conhecer com o corpo inteiro. É um espaço de reaprender a dançar a reza, cantar o choro, escutar a gargalhada finalmente sair das vísceras, sentir o abraço regado a sorriso, transformar a indignação em ato coletivo. O texto de Leo faz jus a essa pluralidade emocional, e você vai se ver pensando com silêncios novos enquanto sorri de histórias inusitadas e até absurdas. Você vai percorrer o caminho destas páginas aprendendo a mesclar reverência e irreverência, cheiro e ritmo. É como se fôssemos convidados a ler um caderno de campo de um antropólogo generoso, que oferta sua alma ao compartilhar as miudezas e os sussurros que ninguém ouve. No fundo, eu sinto que Leo é aquela criança curiosa, que cresceu e não perdeu a curiosidade de ver através do buraco da fechadura para descobrir aquilo que está escondido, normalizado e que precisa voltar na forma de palavra bem dita.
Quando terminei a leitura, voltei às ruas que tenho percorrido, fazendo-me a pergunta: o que a pressa tem evitado que eu perceba, que eu reconte, que eu sinta como assombro ou poesia? Por isso, a honra de escrever este texto se soma à alegria de trazer agora molhos lambões nos olhos, na pele e nos ouvidos. Quero me lambuzar de mundo, mais uma vez, e isso eu devo hoje ao Leo Pessoa, esse cronista de se levar coração adentro.
Alexandre Coimbra Amaral
Psicólogo e escritor