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Disponibilidade: Brasil

a bandeira
da libido da minha casa
a bandeira da libido
da minha casa
a bandeira da libido da minha casa

R$49,90

_sobre este livro

quero escrever um poema coxo/ baixa literatura/ alto-mar. Essa é uma das pequenas poéticas que Jorge Castro nos apresenta. Uma poesia que se quer manca, suja, permeada pelos baixos corporais e pela imundície da vida mundana. Mas, até ali, onde a vulva, o pênis e o mijo são, à primeira mirada, signo do nojo e da aversão, surge também a busca do inefável, do brilho fugidio presente no êxtase do orgasmo. Nesse transbordar-se palpita a linha tênue que separa o prazer e a dor inenarrável, a explosão da vida e o aniquilamento da morte. Não à toa a mesma poesia, que se anuncia baixa, almeja à grandeza do alto-mar, quer brincar com o perigo de aventurar-se pelo desconhecido.

A profusão de imagens inesperadas — a esperança bamba/ da gota de sêmen, o homem-boto sem memória, as mangas verdes/ comidas com sal/ e sexo, o seio/ banhado de poeiras cósmicas/ apanhado de jocastas enfermas —, orbita uma das constantes da poesia moderna desde Baudelaire: a busca da beleza na feiura, da musicalidade no horror. Aí, ladeiam-se o golden shower e a água mais pura do mundo, os pés talhados por Michelangelo e os pulmões tísicos de Egon Schiele. Algo desse jogo com a quebra de expectativa do leitor aparece já no título do livro: as metáforas em questão tentam arrombar as portas do imaginário e entrar com tudo. As palavras de Castro invadem, impõem-se com violência e ternura.

Trata-se, ainda, de uma poesia eminentemente urbana, que, como as pessoas que se acumulam/ nas terras do araçá, vive da sobreposição dos detritos e fragmentos que se encavalam nas ruas da cidade. O mundo aparece implodido entre pedaços de Caetano Veloso, Casablanca, Waldick Soriano, Drummond e da arquitetura de Lina Bo Bardi. A abordagem caleidoscópica do real ecoa, em primeiro lugar, as contradições da colcha de retalhos que são a cultura e a sociedade brasileiras de maneira geral. A manifestação máxima desse movimento é a cidade de São Paulo, com seu traçado bruto e revestido de ruínas, obras e concreto. Ao mesmo tempo, porém, há algo de universal nessa urbe contemporânea, morada do profundo desconsolo com os rumos da contemporaneidade, essa que promete o futuro mas entrega apenas a expectativa do fim dos tempos.

Nem por isso desaparecem as possibilidades de diversão e prazer nos meandros da melancolia: o presente se mostra veloz e implacável, mas esse eu lírico é sagaz, ácido, cachorrão — é mastigado e cuspido pela cidade e pelo tempo, mas acha a mordida e o cuspe sexy, tem tesão em chafurdar-se, cai atirando. O mundo em que vive é desesperador, mas o poeta afirma: quero preservá-lo/ como uma bela memória/ de um certo/ amargor. Bebendo na fonte da poesia insólita de um Roberto Piva, bem como na irreverência dos pós-tropicalistas dos anos 1970, aí está a força da linguagem de Castro: até do oco/ brota som.

 

Rafael Paccola

setembro de 2025

 

_outras informações

isbn: 978-85-7105-322-9
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 13x16,5cm
páginas: 84 páginas
papel pólen 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª

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