“A chuva de São Pedro caiu sem pena, encharcando as ruas, transbordando os rios, afundando o asfalto, prendendo todos em casa, acabando com a festa do povo e alagando minha cozinha. O pé d’água derrubou árvores e fez com que o sino da igreja fosse tocado.
Três badaladas. Estremecemos juntos. O sino da igreja tocava apenas às seis da manhã, ao meio-dia, às seis da tarde, quando alguém se casava ou morria. Ainda não eram seis da tarde, e, se fosse para anunciar as horas, mais badaladas deveriam romper o silêncio ensurdecedor da tempestade. Só restava a última opção. Alguém tinha morrido. Senti meus olhos dilatarem e os de Lilibela estavam do mesmo jeito.
— Que Nossa Senhora nos proteja. — Lilibela se livrou de meu abraço e voltou a encarar o dia escurecendo lá fora. — A rasga-mortalha veio mesmo buscar alguém. — Ela se benzeu e o sino voltou a tocar.”