Este livro é um perigo. Uma vez aberto é difícil tirar o corpo fora. Tem um Gepetto que sacrifica o filho e o peixe de estimação, um estuprador que atravessa um rio rosiano, um ser enterrado vivo e até torturadores. Respira. A prosa ajuda: clara, sem literatice, vai lhe puxando para um reino estranho mas familiar. Em alguns momentos, a narrativa compõe uma superfície plácida que acoberta monstros — nazistas, milicianos, homem-bomba e gente como a gente.
Corpo presente é obra de quem domina este gênero difícil, o conto. O escritor argentino César Aira o coloca ao lado da poesia como aquele em que não se permite errar. Um conterrâneo célebre do Aira disse que o conto deve derrubar o leitor. Diego Gianni não desmente os hermanos e vai além. O curitibano consegue diversificar tons, narrativas, estilos, sem perder a mão, exibindo algo raro, que lembra os melhores contistas contemporâneos, como Sérgio Sant’Anna. Há histórias que tangenciam a crônica, como “Coppola”, “Bracatinga”, e outras em que experiências reais e cotidianas são assombradas por narradores desapiedados. E é notável como essa diversidade não se dispersa, ao contrário, se adensa em torno de um clima duro em que os corpos presentes são devorados pelo tempo (um serial killer, segundo um narrador), a morte e, quase sempre, com muita crueldade. Respira. Há alguns momentos em que o tom suaviza. Narrativas nas quais personagens próximas do narrador/autor protagonizam as histórias com algum lirismo, boas lembranças, mas sem perder a dureza.
Esse feito pode ser explicado pela capivara do Diego Gianni. Ele é jornalista de formação, escritor e roteirista de profissão, o que lhe dá o sentimento de conjunto. Narrativas com diferentes focos e vozes, contos dialogados à Luís Fernando Veríssimo, passagens do Machado fantástico, paródias de diferentes discursos à solta neste nosso país estranhíssimo, não tiram o foco da obra, uma luz forte e crua sobre nossos corpos dissolutos.
Eugênio Vinci de Moraes
doutor em literatura brasileira (USP), professor e autor de Rua: crônicas de reclusão e reencontro (Cambalache, 2023)