O livro As flores crescem devagar é uma genuína onda de sentimentos observados de forma sensível e surpreendente de eventos cotidianos, que, por vezes, são despercebidos por nossos olhares descuidados.
O título é um convite a desacelerar o ritmo frenético das nossas rotinas; com a afirmação de que as flores não crescem rápido, mas sim, de-va-gar. Além da serenidade envolta nos contos, Antonio aborda eventos brutos e dolorosos de maneira singular; através de duplos movimentos de violência e delicadeza, fantasia e vivência etc.
O primeiro conto, “Cortejo fúnebre”, e o segundo conto, “O homem que morreu amanhã”, se encontram na brutalidade e fragilidade do ato laboral. Antonio nos mostra que trabalhar é morrer. Assim como a morte, a realidade e a fantasia estão presentes em todos os contos do livro. Em um constante balanço da realidade concreta e ficções palpáveis.
No terceiro conto, “A varanda dos gatos”, a barbaridade com a qual nos acostumamos a vivenciar é exposta na indiferença e inércia das personagens. O sentimento muda no quarto conto, “Meu sapato, nosso guarda-chuva”. A beleza, o cuidado e a ternura são amplificados e convertidos no amor de mãe.
A violência e burocracia voltam no penúltimo conto, “A instituição”. Colocadas lado a lado e de forma serena, aborda o problema latente em um dos pilares de qualquer sociedade democrática.
Finalizando de forma florescente, Antonio retoma o sentimento de amorosidade e afeto no último conto, “Todos os dias, caio de amores”. Através da relação das personagens, a emoção e sentimentalidade são colocados em seu nível máximo de apreciação, deixando que a esperança da brandura reduza a dureza do dia a dia.
Estes contos realçam episódios genéricos, transformando-os em sensações e reflexões pertinentes na atualidade; como a dor, a perda, o interesse, o carinho, o rito e o desejo. Antonio observa os pequenos detalhes efêmeros e os ilumina de forma única.
Bianca Cruz