Origamis
A libélula pousa sobre o fóssil de um dinossauro.
Frágeis, segundos dobram-se sobre si: a areia dourada do outono passa na ampulheta do tempo.
Para este voo, Nima desafia a cronologia e costura versos com fios de memória. A vida aqui não conhece linha reta. Passado e presente, em espiral; DNA que guarda segredos em cada uma de suas voltas.
A eternidade mora nos detalhes: borboletas aninhadas em órbitas vazias, urutau que canta a primeira palavra pronunciada pelo vento. Saturno e suas 145 luas brilham neste quintal.
Com 35 composições, a obra articula uma delicada arqueologia do instante; paciente, a poeta escava silêncios, até que flores raras paridas ao sol arejem o sufoco, a dor, o pó.
O caminho é por poemas breves, haicais, cânticos e preces — desenhos no ar, recitativos de pedras. Percorro a rota entre o efêmero e o eterno, até chegar à casa. Vejo sua varanda ocre, o ocaso sobre a mesa ainda posta. Sou a convidada que chega tarde demais para o café da tarde?
A vida no corpo, na terra, é passagem, fecunda, nada escapa ao seu arrepio. O livro termina onde o tempo recomeça. A manhã ensaia mais um retorno, rosa obstinada, poesia que se recusa a morrer.
Adriana Aneli