Em Erosão à brecha, Nathalia Bezerra conduz o leitor por uma experiência fragmentária, na qual a linguagem se arrisca constantemente entre o vestígio e a desaparição. Nessa arquitetura da perda, seguimos o percurso da “flecha venenosa” anunciada por Alejandra Pizarnik na epígrafe do livro: “como uma flecha venenosa, contaminou-a um desejo: escrever, escrever”. E escrever, aqui, é também perder-se para o papel: “há uma fina película entre a pele e o mundo / desfazendo-se lentamente / na procura obsessiva da palavra”, diz Nathalia.
Fazendo do poema um desdobramento do corpo e da memória, os poemas culminam na fantasmagoria que resta, afinal “a palavra depois de ir, evapora / não sobra rastro / do sumiço”. Este corpo, que parece estar sempre se desmanchando na paisagem, é também o corpo amoroso, numa tessitura em que o desejo evapora desde as ausências e as tentativas frustradas de nomeação. A poeta constrói seu texto na oscilação entre anseio e apagamento, em versos que recriam a experiência amorosa à espreita da finitude: “te pedi finalmente / que me olhasse / mas não sobrevivi”.
Há desde o título do livro uma aposta no inacabado, no deslocamento de sentido, na recusa de uma totalidade. Os poemas, com sua dicção hesitante, vão sendo interrompidos por uma urgência de dissolução: “há na escrita o ato / de testemunhar um desaparecimento”. As imagens, muitas vezes abruptas e oblíquas, são atravessadas por silêncios estratégicos que presentificam a brutalidade dos finais. Agravando a erosão da palavra, o perigo do corte iminente confirma que não há caminho seguro no percurso destas linhas.
Do atrito entre nome e o seu avesso, Nathalia Bezerra constrói neste livro um território não apenas de ruína, como também de reinvenção. Ao trazer à baila outras vozes para ressoar em seus versos, como as de Chico Buarque e Ana Cristina Cesar, além da própria Alejandra Pizarnik, a poesia passa a compor uma paisagem. Estamos, portanto, diante de um panorama que nos desafia por preferir a fissura e o rastro, por perseguir aquilo que, a todos nós, escapa.
Ana Maria Vasconcelos