COMO NÃO AMAR(ELA)?
Que surpresa boa, e que sorte, encontrar a poesia humorada e madura de Vivi Rocha!
Surpresas são bem mais comuns que o tédio não poderia ser um título mais apropriado para este essencial livro de poemas. A poesia de Vivi fala da essência de poeta-pessoa, a que explicita a urgência de dizer e nos põe em contato direto — quase corpóreo — com a essência de pessoa, a se espraiar para todas as pessoas, a se reconhecerem em subjetividades e sentimentos.
A poesia de Vivi tem vários estratos. Visito uma artista-poeta, culta, autêntica, e isso faz a poesia dela saborosa para vários paladares. Ela provoca, em versos, leitores e leitoras a sentir e refletir sobre a humanidade, a partir de sua existência.
Os poemas se apresentam para nós, lindamente organizados, em oito capítulos. Nestes capítulos, a poeta fala de sentimentos íntimos, intrínsecos, e, também, de cenas por ela vividas. Mas tanto esses sentimentos como as cenas parecem nossos, nos apropriamos deles espontaneamente, pela qualidade da poesia e pela intensidade dos temas.
Os nomes dos capítulos, todos escandalosamente sobre o ato de amar, amalgamados, me permitem visualizar um novo poema de Vivi, a parte:
“moças urbanas míopes
surpresas são bem mais comuns que o tédio
justo agora,
cair em si
essa mania irritante de escrever em rima
nenhum ruído silencia
escafandrista num mundo de espelhos d’água
minha cama é uma ilha deserta”
“Surpresas” é para brincar e ficar na cabeceira, um livro para ser visitado e revisitado como um amigo e surpreender a cada vez que lido.
Escolher apenas um poema para exemplificar a força e as características da poética de Vivi é tarefa dificílima, mas o poema Amarela tem esse dom:
“amarela
nunca me vi assim
a cor do sol não está na minha pele
nunca esteve a cor da minha pele
talvez não reflita a minha origem
não escolhi o rótulo mas entendo a luta
e de tanto entender que não era branca
fui me amarelando
a pouco e pouco
tal como as folhas amadurecem
e caem em si
amarela
sou
por raiz
por história
por maturidade
por entender
que tenho que ocupar um lugar
que é só meu
amarela”
E finalizo a sentir: me torno amarela por esses versos, sou amarela, geral é amarela. Afinal o sol amarelo brilha, tal a poesia da Vivi.
Aproveitemos, pois, as inevitáveis surpresas em cada deliciosa visita ao precioso mosaico de versos de Vivi Rocha, fragmentos a serem sempre renovados. E viva a poesia de Vivi que nos permite voar além!
Beatriz Di Giorgi