Atenção passageires, última chamada para embarque nessa viagem que abre rotas entre barcos, ondas sonoras, aviões, karaokês, caminhões de lixo, pistas de corrida e de dança — e também alcança lonjuras de pedra parada, reverberando voos silenciosos nos recônditos canteiros de si mesmo. Traslado é bordado de som e palavra, tecido em conversas e observações, sempre na abertura para o encontro. Um lembrete de que estamos de passagem e que o melhor a fazer é partilhar a jornada, aprender de outras gentes: crianças, idosos, rochas, pombas-relógio e o que mais pintar.
Estamos diante de um vulcão que observa, escuta, questiona, conecta, transgride, jorra e escreve. Bruna Castro escreve muito. Escreve como escape, carregando contrabando imaterial que entra nas fronteiras, infiltrado e imigrante. Ela escreve, entre lenguas, across the oceans, tecendo alas dans l’aire, encontrando gente da mesma laya, primavera nos dentes, metal e crocs no pé.
Em Traslado, Bruna segue a intuição das andanças e “cria a própria subtitle”. Dá a letra e nos faz chafurdar nos Ks (tenho certeza que foi ela que inventou o meme “kkkkrying”), enquanto concordamos que podemos viver sem alguns Zs, embaixo do solinho português. Na cisma, ela cava buracos com a própria língua, cria nós & mezcla tudo com farinha, borrando fronteiras. Sem sutiã, pero siempre com insistência.
Se o narrador arcaico (camponês e viajante) de que nos fala Walter Benjamin contava histórias com a alma, o olho e a mão, em Traslado temos uma narradora artesana, tecnológica y queer feminista, de bruxismos guturais, que escreve com o labirinto, os dentes e a garganta. Ela fala, “e, como toda mulher que fala, é mal interpretada”. E então ela fala de novo (“entra muda e não sai calada”!). Ela quer ser ouvida tanto quanto um homem.E então, quando é preciso, ela GRITA. Grita do fundo da gruta, no “gozo dos prazeres que saem da garganta”.
É claro que neste traslado também há silêncio. O silêncio é bem-vindo, quando cala a máquina, os jet-skis, a turba das metrópoles, a avalanche incontrolável do capital. O silêncio abre brechas de espanto nas fendas das rochas. E de repente, sob o céu estrelado da praia, podemos viver de luar e sardinha, como Mariella, e de manhã mergulhar na quietude das ondas, concordando com os olhos que é demasiado “cedo para falar alto”.
Decantado o silêncio, podemos rompê-lo novamente, na entrega às descobertas, abrindo conversas com estranhos mientras esperamos o ônibus, o autocarro, a roupa por lavar.
O silêncio se rompe nas miudezas da fala, nas diferentes estratégias de small talk e nos modos de demonstrar gentileza entre desconhecidos, matéria que Bruna Castro investiga tão bem. O que faz uma pessoa desconhecida virar conhecida, amiga, parceira? Na troca, podemos encontrar hérnias e hiatos em comum, construir vínculos, pares, comunidades.
“Wanna scream together?” Não há melhor convite neste traslado alto astral. A vida é finita, então toca gritar junto e aproveitar os encontros, pois pode ser que nunca nos vejamos de novo. Me joga pra cima, que te jogo também. E quem sabe, como disse o sr. Antonio: “ya nos veremos en el cielo!”
Flora Lahuerta
(aeroporto de Roma, julho de 2025, depois de comer um tiramisù)