“Madalena rezou, Jesus me salva, me tira daqui, me ensina a multiplicar os peixes. Jesus, talvez você esteja tão cansado quanto eu, precisando de amor, esquecido do próprio corpo, quem sabe se você me pedisse para chupar seu pau, o que acha, eu faria com gosto, te vejo cansado de tanta gente falando besteiras no seu nome. Você merece um espaço para ser feliz, apesar das pessoas te preferirem como um sofredor, gasto, velho, sujo, triste e morto.”
Nesta novela de estreia, Manuela Ramalho nos conta a história de Madalena, uma mulher vulgar, no sentido comum da palavra. Uma mulher que sente tanto prazer no sexo quanto no cuidado, que sonha com uma vida doméstica tranquila, ter marido e filhos, mas tem seu sonho destruído pela violência e pelo machismo.
Em A mãe vulgar, Madalena sobrevive trabalhando em restaurantes, uma ou outra loja de roupas, e vive cansada. Envolvida em novos relacionamentos, ela se deixa levar pela abundância dos prazeres, engorda e perde o emprego, para depois voltar a emagrecer e se abrir a uma nova paixão.
Esse ciclo de emagrece-engorda dos múltiplos amores é interrompido quando conhece o espanhol Pablo, seu salvador tal qual Jesus Cristo, um homem que lhe despertava os sentidos sexuais com um corpo musculoso e um jeito sedutor. Um homem que não é o que parece.
Ela enfim se estabelece em um emprego que lhe traz apaziguamento, de cuidadora do seu Armando. E quando tudo parece calmo, vem o filho Gonzalo para completar a família. Inesperadamente, Madalena recebe uma herança, que leva Pablo a se envolver em confusão. Com isso, a família se muda para a Europa.
A vida na Espanha não é o esperado. Madalena é feliz cuidando do filho e da cachorrinha Lupita, mas se vê presa em um ciclo de violência, xenofobia e amargura. Ela tenta existir dentro da sua vida doméstica, que se despedaça de forma cruel. Uma válvula de escape são as anotações no seu caderninho de desesperos, pequenas pérolas que a autora nos dá de presente.
A força de Madalena talvez venha da força de Manuela, uma grande artista não só nas letras, mas também nas artes plásticas, com um lindo traço modernista no desenho e na pintura.
Prepare-se para se emocionar com esta personagem arrebatadora, que amadurece enquanto seus sonhos se transformam. Enfim, ela encontra forças para uma reviravolta surpreendente, quando descobre que se basta. Afinal, Madalena é uma mulher vulgar. Madalenas somos todas nós.
Juliana Ulyssea
Escritora e jornalista