Há uma citação de Glória Anzaldúa, em sua Carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo: “mulher mágica, se esvazie. Choque você mesma com novas formas de perceber o mundo, choque seus leitores”.
A névoa setentrional, as brumas tropicais, a nebulosidade fronteiriça, a alquimia das horas que precedem o amanhecer imponente no rio que é dentro. O mistério insondável do limítrofe. Em meio a tanta obscuridade, amores túrbidos, mas que são lidos com a transparência hermética do lirismo. Entre dias enluarados e crepúsculos largos, Mariana Alves delineia um percurso poético marcado por imagens sinestésicas, paisagens amazônidas que refletem epifanias, dilemas existenciais e tensões emocionais.
Oiapoque é o horizonte que ambienta esta obra que se divide em três seções principais — “Neblina do Oiapoque”, “Céu aberto” e “Maré cheia”. Ainda pensando por meio dos conceitos de Anzaldúa, Mariana se configura no ethos de uma “mulher fronteira” — e “mulher mágica” —, ser interseccional situado entre múltiplos mundos: cultural, social, econômico, plurilíngue, político e psíquico, com habilidade de navegar em zonas de conflito, sejam eles geográficos ou simbólicos. A fronteira que para Anzaldúa não é apenas uma linha física, mas um espaço psicológico de (des)encontros, em Da neblina, da poesia, do Oiapoque se liquefaz nos fluxos da memória, inebriante travessia literária, tal como as passagens e descaminhos navegáveis em Saint-Georges-de-l’Oyapock.
A poesia de Mariana Alves está profundamente ancorada em uma cartografia imperscrutável: uma região que representa literalmente uma fronteira — entre Amapá e Guiana Francesa — se desenha no mapa das encantarias entre terra e rio, entre o vivido e o imaginado, entre a saudade e o desejo, entre amores findos e a celebração das paixões vindouras.
A neblina como metáfora catalizadora dessas elucubrações evoca e traduz os esfíngicos enigmas que a cidade esconde nas ensimesmadas encruzilhadas do extremo Norte. Junto da cidade, outro território — o corpo — oculta e revela também. Sondando essa abstrusa neblina, olhando para o firmamento infinito para ser inundada de incertezas, Mariana Alves escreve: chagas, feridas abertas, delícias do afeto, diários do passado e do devir. Este livro é um convite para penetrar o impenetrável: os contornos das bordas-limiares do Eu.
Lara Utzig