O intenso livro de estreia da poeta mineira Alice Pereira Carlos, Primeiro prestamos honras à morte se configura como uma obra muito bem arquitetada partir de algumas investigações sobre o corpo e suas representações (as violências, as palavras e os não-ditos que incidem sobre ele). Como mostram as quatro divisões internas, esses eixos são distribuídos ao longo do livro como as pétalas de uma corola em cujo núcleo, no entanto, não temos apenas um único pistilo-ideia central, da qual tudo se irradia e que sustentaria a obra, mas a linguagem, protagonista absoluta dessa criatura-obra inquietante. Sim, a linguagem, em seu estado mais poético: trabalhada e retrabalhada até chegar ao cerne da realidade. Porque, como a própria poeta escreve, “a palavra /é faca afiada // e o que resta / são fendas”.
A realidade, com suas experiências duras e por vezes violentas, assombra então nos poemas por meio de uma linguagem áspera, cortante, que reverbera no leitor de forma contundente, incitando-o a entrar e a habitar as fendas, as zonas de silêncio, os “terrenos baldios”.
Interessante observar como o olhar da poeta sobre a realidade é desprovido de resquícios românticos: o que lhe chama atenção são as ruínas, os terrenos baldios, os rasgos nos muros, os cortes na pele e, em geral, os fantasmas que habitam as zonas invisíveis da imaginação. Para isso, Alice Pereira Carlos foge da representação narrativa do cotidiano, tão presente na tradição lírica brasileira contemporânea, e recorre à composição por fragmentos, por retalhos, por blocos, como se os versos fossem partes de uma escultura ou de uma colagem. A poeta articulou um jogo sofisticado de recortes e encaixes de versos e referências de outras poetas mulheres (Aglaja Veteranyi, Luiza Romão, Regina Azevedo, Maria Teresa Horta, entre outras) além de um diálogo com a pintura da artista Adriana Varejão. Sei disso, pois o livro foi escrito durante seu curso de mestrado em Criação Literária na UFJF, ocasião em que segui de perto seu processo criativo. No entanto, a poeta optou por não tornar visíveis essas referências, com a intenção de embaralhar e intensificar as relações entre as peças no seu tabuleiro da escrita.
Afinal, é disso que se trata: de uma poesia que resolve, ao “prestar honras à morte”, celebrar aquilo que pulsa, que lateja, nas feridas e nas tensões, criando um mundo poético no qual a vida “tanto dança /quanto aniquila /extraindo as cores do jardim”.
Prisca Agustoni