Por onde ressoa a voz das mães que cantam em vigília nas madrugadas? Enquanto os filhos ardem de febre, elas ardem de cansaço e equilibram-se na fina divisa entre a intuição que assegura o cuidado e o desespero de já não saber como agir?
Aqui nestes poemas ressoa a voz de uma mãe: a mãe-poeta nomeia a doçura — “doçura, doçura, doçura” — enquanto revela o ato comum de tentar, ao menos, planejar a hora de chorar. São tantos planos feitos, tantos planos desfeitos, e a possibilidade da poesia abrindo vias num calendário para que uma mãe possa cantar.
Joana sorri de não poder chorar enquanto inventa um jeito de dizer-se ao tempo: o tempo de mãe parece nunca se adaptar às horas, nem sequer parece poder assentar no próprio corpo.
No entanto, o tempo-mãe é o que sustenta a raiz de outras galáxias: é natureza que gera natureza, cumprindo um “pacto com a vida” sem o qual o tempo não tem mais onde encarnar. Enquanto esse pacto é sabotado – os dias são sequestrados pela ilusão do atraso, as vidas submetidas a uma lógica mesquinha que exige sacrificar o tempo da própria vida em troca de conseguir o dinheiro que supostamente a sustenta, ou em troca da promessa de uma vida alheia – uma mãe ainda pode reconhecer seus filhos e neles, refazer sua poesia. É assim que Joana diz: quando já não se pode mais quase nada, a poesia ainda surge enquanto um poder. A poesia de Joana suporta o contraste impossível entre as mães da natureza — princípio gerador, corpos que espiralam a vida — e as mães de gente, asfixiadas por um colonialismo que as empobrece e isola.
Porque mesmo quando as mães fracassam (e quantas vezes fracassam), resta um ato indomável: o de criar. O “pecado de mãe é estender lençol na varanda pra secar/ onze horas da noite de sábado/ depois de comer mingau frio”. A criança que toda mãe também foi — em seu desamparo, sua fé, seu brincar — renasce quando nasce uma mãe. E é essa criança, que poeta-mãe também materna, sonhando o mundo junto à sua criança-filha e tecendo futuros na espiral do tempo.
A mãe que aqui confessa à filha — “não saber te proteger é a falha que mais me assombra” — é a mesma que declara, inebriada: “eu vou pela possibilidade de dizer-me: Mãe!”. Essa mãe são muitas: fizessem um coro, o mundo teria que parar pra ouvir. Nos versos deste livro, essa mãe que está aparentemente só, e às vezes exaustivamente só com sua cria, entre paredes, numa cidade que às vezes é um deserto, reconecta o coro. Se “mãe é aquela a quem se chama” (e quantas mães sabem que é a palavra mais repetida em tantas línguas), por que tantas se vêem tão sozinhas? Joana rompe o véu dessa solidão fabricada — por políticas de morte que reduzem o maternar a uma função subalterna, sustentáculo de um sistema doentio. É ali, no aparente vazio, que o Matripoder ressurge — como resistência, como política do justo, como fresta por onde transborda a abundância negada. Aqui, as palavras são cumplicidade: ao lê-las, reconhecemos a mãe como entidade coletiva. Aqui retornamos ao domínio da poesia: onde uma mãe pode até mesmo inventar um jeito bonito de maternar.