Ao ler A morte e a sorte não mandam recado, o livro de estreia de Maurício de Olinda, uma pergunta me ronda: que tipo de sorte acompanha uma pessoa que escreve poesia no Brasil?
Logo, algumas certezas surgem. A primeira delas é que, assim como a escritora italiana Natália Ginzburg afirma em seu belíssimo ensaio “O meu ofício”, Maurício sabe que é escritor há muito tempo. Não sei se, há 15 anos, quando o conheci, ele se via assim, mas sempre foi um excelente contador de histórias. Acredito que, assim como Ginzburg, ele já sabia, de algum modo, que a escrita se transformaria em seu ofício; que escrever seria como estar “em seu país, nas ruas que conhece desde a infância”. A sorte, portanto, está cravada nesse não-dito, nesse mistério que envolve o processo e o desejo de escrever.
A morte e a sorte não mandam recado é uma estreia literária que traz um projeto bem delineado, que vai além de organizar poemas com temas ou estilos semelhantes: ela os conecta ao ciclo da vida e da morte de corpos humanos e não-humanos, de ideias e de amores. Em O corte, O outro e A morte, as três partes que compõem o livro, somos apresentados a poemas que exploram a beleza e o tormento das relações. Que corte seria esse (de um baralho, talvez?) senão o do corpo, que se expõe ao mundo e, consequentemente, ao leitor? O que seria o outro senão aquele, seja humano ou não, com quem buscamos entender nossa própria realidade de mundo? O que seria a morte senão o grande mistério que persegue a vida e, paradoxalmente, lhe dá sentido? O percurso da existência, com suas vitórias e desafios, é impregnado de sorte (ou da falta dela): “Viveremos um resplendor ou uma tragédia”, dependendo do alcance de nosso desejo; é possível perceber, nos pequenos rituais diários, que ainda estamos vivos “Enquanto ralo/ meus nabos e rabanetes”; ao entrar em contato com a vileza do mundo, se perguntar “Qual será o deus depois do massacre?”.
Talvez a sorte de escrever poesia no Brasil esteja diretamente ligada à de conhecer obras de escritores que, assim como nós, buscam na escrita seu verdadeiro ofício. A sorte, ao ler Maurício de Olinda, é encontrar, neste livro, o Outro sendo representado por uma mariposa, um gafanhoto, um carcará, o vento ou um pé de tangerina: “Tudo são palavras./ Se você não piar,/ passarinho verde fala.” Nessas relações, revela-se a necessidade de ressignificar o corte, nosso primeiro contato com o mundo, e a morte, que não é nosso último.
Mariana Marino busca viver do ofício de escrever. É poeta e doutora em Letras.