Pequeno mapa do tempo

Disponibilidade: Brasil

Contrariando as previsões, não choveu naquela manhã, dia claro, úmido.

Pássaros escandalosos, felizes.

Ainda não sabiam do ocorrido. Nenhuma estranheza os fizesse desconfiar, nada de pressentimentos, calafrios. Ninguém cochichando pelos cantos. Manhã comum, domingo de dezembro.

Seu Arlindo ajeita o carvão na churrasqueira. Joana coloca a cerveja numa dupla de copos americanos.

Crianças gritam empinando pipas na rua. Um cachorro late tentando se soltar da coleira. Arroz pronto, vinagrete apimentado, farinha, limão. Rotinas.

Nenhuma suspeita da ameaça à tranquilidade dominical.”

R$50,00

_sobre este livro

Uma das grandes virtudes de Pequeno mapa do tempo, estreia na literatura de Hellen Sousa, é a forte unidade temática existente, algo pungente que vai se acumulando, conto a conto, durante a leitura, como se cada história se somasse à outra e, ao fim, o leitor saísse sensorial e emocionalmente impactado.

Hellen conta histórias, cria enredos, constrói dores, emoções, conflitos. No entanto, como nos traumas, as fraturas não são necessariamente expostas, há toda uma história pregressa não mostrada, mas que o leitor intui, fareja, pesca. Há muito mais ali do que a autora revela, do que o próprio narrador dá a ver, uma subjetividade profunda dos personagens que emerge nas falas, hesitações, nos traços de personalidade. Uma qualidade para poucos autores estreantes, porque envolve não apenas uma maturidade literária, mas um despojamento do ego, o respeito à inteligência do leitor.

As mulheres (crianças, velhas, jovens adultas ou já maduras) são as personagens privilegiadas destes contos. Meninas, aqui, não vestem rosa. A autora opta pelo conflito das relações familiares, amorosas, ancestrais, hereditárias, por meio do qual tematiza a opressão, a violência, o ressentimento, a melancolia, a culpa: “Não me lembro qual foi a última vez que saí para brincar com meus amigos na rua, nem da última vez que abracei minha avó ou a minha própria mãe”, revela a narradora logo nas primeiras linhas de “A mentirosa sou eu”.

E por mais que o realismo pessimista se imponha na maior parte das histórias, a autora dá ótimos indícios de que domina um repertório variado, seja a vertente ácida com doses de humor corrosivo, de “Bactéria cósmica”, seja o realismo fantástico, no belo e triste “Uma nuvem passageira”.

Nesta coletânea de contos, o leitor vai se deparar com uma autora de estilo próprio e forte, que domina o ritmo e os diálogos e constrói imagens com habilidade extrema. A estreia de Hellen Sousa é em grande estilo. Mais que um livro que deve ser lido, Pequeno mapa do tempo é um livro que merece ser lido.

Tiago Velasco

_outras informações

isbn: 978-65-5900-964-0
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 14x19,5cm
páginas: 108páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª

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