Uma das grandes virtudes de Pequeno mapa do tempo, estreia na literatura de Hellen Sousa, é a forte unidade temática existente, algo pungente que vai se acumulando, conto a conto, durante a leitura, como se cada história se somasse à outra e, ao fim, o leitor saísse sensorial e emocionalmente impactado.
Hellen conta histórias, cria enredos, constrói dores, emoções, conflitos. No entanto, como nos traumas, as fraturas não são necessariamente expostas, há toda uma história pregressa não mostrada, mas que o leitor intui, fareja, pesca. Há muito mais ali do que a autora revela, do que o próprio narrador dá a ver, uma subjetividade profunda dos personagens que emerge nas falas, hesitações, nos traços de personalidade. Uma qualidade para poucos autores estreantes, porque envolve não apenas uma maturidade literária, mas um despojamento do ego, o respeito à inteligência do leitor.
As mulheres (crianças, velhas, jovens adultas ou já maduras) são as personagens privilegiadas destes contos. Meninas, aqui, não vestem rosa. A autora opta pelo conflito das relações familiares, amorosas, ancestrais, hereditárias, por meio do qual tematiza a opressão, a violência, o ressentimento, a melancolia, a culpa: “Não me lembro qual foi a última vez que saí para brincar com meus amigos na rua, nem da última vez que abracei minha avó ou a minha própria mãe”, revela a narradora logo nas primeiras linhas de “A mentirosa sou eu”.
E por mais que o realismo pessimista se imponha na maior parte das histórias, a autora dá ótimos indícios de que domina um repertório variado, seja a vertente ácida com doses de humor corrosivo, de “Bactéria cósmica”, seja o realismo fantástico, no belo e triste “Uma nuvem passageira”.
Nesta coletânea de contos, o leitor vai se deparar com uma autora de estilo próprio e forte, que domina o ritmo e os diálogos e constrói imagens com habilidade extrema. A estreia de Hellen Sousa é em grande estilo. Mais que um livro que deve ser lido, Pequeno mapa do tempo é um livro que merece ser lido.
Tiago Velasco