Uma pré-adolescente, em uma tarde comum no clube, começa a entrever novas formas de se perceber. Pressentindo que a filha escapa à sua compreensão, uma jovem mãe tenta manter a aparência de normalidade em sua família. Uma menina se torna espectadora de si mesma ao se deparar com uma violência que se insinua no cotidiano, moldando também sua maneira de estar no mundo. Durante uma viagem angustiante, uma mulher encara alguns de seus temores e busca compreendê-los sob outra perspectiva, em nova proporção. Uma professora encontra na banalidade do dia a dia o ponto de partida para reconhecer a origem de uma raiva antiga — e vislumbrar o que poderia, enfim, fazer com ela.
Enquanto elas crescem no escuro reúne cinco contos protagonizados por personagens femininas em momentos de inflexão. Em comum, o fato de que essas meninas e mulheres se veem diante de um descompasso entre o que são — ou desejam ser — e aquilo que o mundo parece esperar delas. Entre silêncios e desencontros, os contos traçam um percurso de inquietação, lucidez e transformação.
Essa tensão não vem apenas de conflitos internos: é atravessada por marcas estruturais como gênero, raça, orientação sexual e classe social. Cada personagem, à sua maneira, lida com uma fricção contínua entre o sentir e o que se impõe do lado de fora: os papéis esperados, os limites sociais, os silenciamentos. São histórias em que a experiência do estranhamento aciona deslocamentos, provoca rupturas sutis e desvela zonas de descoberta — por vezes, à custa de dor, desconforto ou perda.
Ainda que não haja promessas fáceis de resolução, há um movimento contínuo de enfrentamento e elaboração, mesmo quando tudo ao redor parece conspirar em sentido contrário. Uma vez vislumbrada, ainda que tênue, a luz não se apaga: permanece como um traço, uma lembrança ou possibilidade, capaz de iluminar pequenas escolhas e passos futuros. Resta, então, a essas meninas e mulheres — apesar do peso da incompreensão ou do apagamento — seguir, crescer onde for possível e, pouco a pouco, iluminar.