A vaca profana de Caetano Veloso afirma: “de perto ninguém é normal”, e Kamilla Naves faz coro à canção. Em seu livro de contos somos conduzidos por 13 narrativas instigantes divididas pelas três fases de um surto psicótico.
Na primeira fase, uma espécie de pré-surto, seus protagonistas revelam uma desestruturação emocional latente, nos confidenciam que um surto nunca ocorre de maneira abrupta. Uma mãe sobrecarregada pela maternidade solo — “Pari e continuo sem entender como é que se ama um ser que se alimenta de você” — uma adolescente que sonha em ter o coração da irmã exposto em uma bandeja cirúrgica, uma criança gorda e a quebra das expectativas de uma família que insiste em encaixá-la.
Na segunda fase, o surto propriamente dito, acompanhamos personagens que perdem os limites da realidade. Em situações cotidianas, que nos fazem perceber a onipresença da loucura — “te faço um convite, pense de novo, a loucura descansa a um passo” — Kamilla nos coloca frente a frente com o insólito, aquilo que sabemos existir em nós, mas que insistimos em esconder. A mente, entretanto, é implacável; o furo na performance anseia por ser revelado. A sensação ao ler estes contos é exatamente essa: adentrar um local proibido, sombrio, porém, como diria Freud em seu unheimlich, tão estranhamente familiar. Seus relatos são sentidos como se olhássemos por um buraco de uma fechadura. Mesmo envergonhados por testemunhar algo tão íntimo, não conseguimos desviar os olhos.
Na terceira e última fase, recuperação, nos deparamos com personagens não curados, mas reinseridos em seu contexto social, contexto esse que os fez enlouquecer em primeiro lugar e é pouco questionado como propagador de doença. Um senhor de idade com um sonho interrompido pela homofobia, uma filha negligenciada que resta como cuidadora da mãe, o “doidinho” do bairro e sua insistência em existir — “Conviver com a loucura ao lado era inadmissível, ainda mais uma loucura atrevida que escapava em odores e parasitas pelas rachaduras”.
Com sua prosa intrépida, Kamilla nos guia por uma operação delicada à la extração da pedra da loucura, técnica da Idade Média que prometia a cura aos loucos por meio da extração de uma pedra de dentro de seus crânios. Tal prática é retratada em pintura do holandês Bosch na qual o único personagem a fazer contato visual com o espectador é o louco. A interação visual do louco de Bosch e as personagens brutalmente humanas de Kamilla nos fazem questionar quem é o verdadeiro louco da cena.