A loucura acometida pelos raios solares, o rebanho no charco, o lamacento seguido de sangue, o erotismo da carne — a barca no inferno. O obsceno. Jonathan Cabral, em A imundície segundo um porco, seu livro de estreia, reúne o excesso, o excremento, o horror e a carne em um estilo vanguardista operante. Muito além de um conto que navega como em águas da morte, aqui a presença do brutal, seguido por uma náusea religiosa, nos atinge como em um sacrifício — somos o boi, o porco. O desejo formulado, abastecendo rebanhos e tecendo preces, agarra o ânus solar por meio da transgressão e da experimentação vertiginosa de uma escrita que se desenvolve como um soco em uma pintura de Monet, o fisiológico.
Aos bem-aventurados amantes das transgressões postas aos estados estético, moral, bíblico e social, aqui jaz o prato! É intenso, lindo, poético! Uma ode à manifestação artística livre e de horror, saindo do convencional já conhecido no meio. No erotismo da carne, os corpos são mencionados como coagulação em pacto a ser feito com Lúcifer; os projéteis — em delírio com Deus. Há o olho profundo da marginalidade e da originalidade, que de maneira íntima provoca espasmos por meio de pausas, preces, gritos e volúpias — como uma grande orgia com vinho e merda. Jonathan evoca os gritos que Sade manda das correntes, do corpo encharcado de Edwarda, e suscita a causa e o experimento do corpo de Artaud. Imagens como em sonhos, como em impérios, porém, com o peso da necessidade, do limite, da mão que contorce e puxa, com força, a pele entre os seios. The Litanies of Satan… The Litanies of Satan… The Litanies of Satan…
O sagrado como invenção. Clarice não possui tantos mistérios quanto a Imundície. Citando Artaud em O cocô: “O homem sempre preferiu a carne / à terra dos ossos./ Como só havia terra e madeira de ossos / ele viu-se obrigado a ganhar a sua carne, / só havia ferro e fogo / e nenhuma merda / e o homem teve medo de perder a merda / ou antes, desejou a merda / e para ela sacrificou o sangue.”
Luan Hornich
maio de 2025