talvez o amor seja isso: a orelha de um livro que espera teus olhos e que nasceu só para esse momento, a aguardar a liberdade dos olhos teus.
a orelha de um livro que foi impressa centenas de vezes e que dorme em silêncio, arriscando a falsa eternidade de suas partículas, aguardando te encontrar aqui, nesta linha, neste exato instante da tua vida.
falarei de amor, pensou a orelha do livro. não, mais do que isso — se corrigiu —, cantarei o amor. tens em tuas mãos, continua a orelha, um relato impreciso, absolutamente expressionista, absurdamente poético, do nascimento de improvável amor.
lembro-te, a orelha pondera, que amor são vários. naturalmente plurais. naturalmente humanos. aqui, em meu corpo, amores em movimento destilam poesia e canção, tentando compreender a existência enquanto amam, tentando aceitar a existência e os caminhos que devemos, ou não, seguir.
guardo em meu peito — a orelha sussurra em teus olhos — a história de rafa e tiago, a forma como eles se percebem e, ainda mais importante, a forma com que seus olhos percebem uns aos outros e todos os seus mistérios.
derramando as canções e a poesia que entornas no chão — ao dizer isso, você nota que a orelha do livro dá uma piscadela — tiago e rafa se encontram na encruzilhada de suas vidas: entre o controle e o caos, o cálculo e as estrelas, o asfalto e a rosa, o amor e o amor.
o caminho que seguirão, só descobrirão ao fim das longas horas que passaram juntos, aleatoriamente, naquela curta e longa viagem daquele corriqueiro dia em que rafa aceitou a corrida de tiago para aquele que seria o evento a mudar toda sua vida.
e mais do que isso não falo, censurou-se a orelha, que mais do que isso cabe apenas aos que sonham com o universo nas páginas minhas.