Meu nome é meu, título instigante do livro de contos de Natascha Duarte, já oferece ao leitor uma pista do que vai encontrar. O fato é que as narrativas deste livro de estreia surpreendem.
O universo no qual gravitam seus personagens, mormente femininos, apresenta-se familiar como o cotidiano dos subúrbios, das casas da infância. E em alguns contos esse realismo se mantém: “Com a mãe Aninha aprendera a rezar para alcançar um desejo: ‘Feche os olhos e peça com fervor e sem parar’. Assim, ao ver Moisés pela primeira vez, no supermercado, de chinelo e sem camisa, talvez a mesma idade que ela, orou por um mês inteirinho. Cinco vezes ao dia. De manhã, ao acordar: ‘Seja meu namorado’; antes do almoço: ‘Seja meu namorado’; às 3 horas da tarde e depois do jantar que ela comia na sala, em frente à TV; e já deitada para dormir, quando apertava os olhos e também o coração e implorava aos céus: ‘Porrrr favorrrr!’”.
Mas nem sempre. É certo que o narrador nos ludibria em vários contos: o que começa com uma linha narrativa quase previsível, subitamente quebra-se — instaura-se o fantástico, o absurdo, ou pelo menos o estranho. Ouvem-se ecos de Rubião e de Veiga ao longe, às vezes nem tão distante: “Fundiu-se com ele com a coragem súbita dos que sentem pena de si mesmos. Viraram uma centelha, os dois; um único corpo; uma única boca aberta e cheia de dentes”.
Mas se o leitor pensa que encontrou a chave do enigma deste livro, o pêndulo entre o realismo e o fantástico, engana-se: daí a pouco os contos adquirem tons intimistas. O fluxo de consciência amalgama a voz do narrador a das personagens e agora o percurso da narrativa é interior, evocando notas clariceanas: “Para muita gente, tudo é quase nada o tempo todo; mas para você, é diferente; para você, é como se bastasse a vida. Para mim, não. Eu não aprendi nada com a vida. Tive vontade de jogar ovos nas pessoas, quebrar janelas, matar, e agora estou aqui todo mexido e perguntante. Estou sentimental. O que passa comigo?”.
Estreante com sabor de veterana. Com uma prosa espontânea e versátil, Duarte tece histórias que têm frescor de novidade, ao mesmo tempo que remetem a outras histórias do grande texto da literatura nacional. Vale conferir, com certeza!
Vivianne Fleury de Faria
Doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília, mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Goiás, docente de Língua Portuguesa do CEPAE/UFG.