Dragão-de-Komodo e sua babinha irresistível

Disponibilidade: Brasil

Investigo teus passos com as pontas de meus pés,
desvendo teu corpo nu à minha frente.
Você é tudo aquilo que deixou de ser.
É o bagaço de teus vizinhos,
encontrada sozinha na margem da rodoviária.
É o cheiro de mijo nos lugares ocultos.
É o fedor de dinheiro nos lugares que brilham.
Por que você não me amou, Natal?

R$52,00

_sobre este livro

Dois séculos depois do “mal do século”, os poemas de Gabriel Cavalcanti refletem a seu modo uma nova crise da sensibilidade, no exato momento em que a nossa vida globalizada caminha, em escala planetária, para a sua sexta extinção em massa. No mundo em que vivem o jovem autor deste livro e seus irmãos de século,

nada importa, nada importa:

é tudo grama para pasto, carne para salsichas,

tempo a ser gasto, vida a ser perdida.

 

O eu lírico, afinado com o autor, não reage com indiferença, por vontade própria, às solicitações de uma realidade empobrecida e desumanizante; simplesmente constata, desanimado, que é nelas mesmas que as coisas carecem de importância, postas a serviço de uma existência submetida aos imperativos da produtividade neoliberal. E se esforça para reconhecer e afirmar o valor do que realmente importa, coisa difícil de fazer quando se é jovem (ou adulto), e são infinitas as tentações do mercado.

Se não perdeu sua vivacidade devido à educação que lhe foi imposta, a pessoa jovem, mas também a pessoa em que persiste, irredutível, certo elã de juventude, protagoniza à sua própria revelia a “hesitação” a que Kafka se referiu num de seus aforismos: “Existe um objetivo, mas nenhum caminho; o que chamamos de caminho é hesitação.” O eu poético deste Dragão-de-Komodo hesita, no sentido kafkiano, entre o desamparo do remanescente, egresso de uma vida que tão depressa ficou para trás, e a solidão do reminiscente, reduzido, ainda muito jovem, às suas próprias lembranças.

Uma saída possível, embora precária, é a mesma a que este livro deve sua existência: a poesia, que, no entanto, pode faltar quando mais se precisa dela:

percebo tarde demais que, em mim,

não há poesia suficiente para terminar o poema.

 

À crise da sensibilidade corresponde a eventual insuficiência da invenção poética. Na poesia, que se contrapõe à feiura de qualquer século, Mallarmé enxergava nossa “única tarefa espiritual”. É de espírito, e da alegria que ele fecunda, que sente falta o eu lírico que assim se expressa, em nome de seus companheiros de classe e de geração:

Somos a desilusão do sonho,

no fim do poema,

na margem do mundo,

esquecidos e imundos,

postos de lado,

sem fogo, sem fogo.

 

Ora, “o poeta é verdadeiramente ladrão de fogo”, escreveu Rimbaud na famosa carta do Vidente, aludindo ao feito mítico de Prometeu, benfeitor dos mortais. Ladrão de um fogo originário, primordial, indispensável a quem plasma, com o barro de sua arte, alguma forma de sonho plausível. Privados desse fogo e da vida espiritual que ele propicia; abandonados pelos gestores municipais nas favelas ou no outro lado do rio, postos de lado, os filhos, as filhas deste século dificilmente podem vir a ser poetas. E este livro talvez não existisse.

 

Carlos Eduardo Galvão Braga

Natal, 9 de fevereiro de 2025

_outras informações

isbn: 978-65-5900-991-6
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 14x19,5 cm
páginas: 116 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª

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