Zumbeiro

Disponibilidade: Brasil

A infância é um alambique clandestino:
destila o bagaço do sol em garapa de quintal,
o melado das tardes sem relógio,
o resto de festa que grudou no pé de jabuticaba
que ficava no quintal dos fundos.
[…]

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_sobre este livro

Zumbeiro. A palavra é, antes de tudo, um verbo conjugado: eu zumbeiro. Primeira pessoa do singular, presente do indicativo. Não é um estado, é uma ação em curso, uma confissão no tempo exato em que acontece. Eu bajulo. Eu zumbaio. Eu zumbo. A raiz é onomatopeica: zum, o som que imita a si mesmo. De zumbir nasce zumbeirar, e do ato nasce o zumbeiro: aquele que faz da lisonja uma gramática de sobrevivência e do escárnio uma segunda pele.

É nessa tensão que o livro se instala. Respirar não é um direito inalienável; é um empréstimo com juros de angústia. A existência aqui não começa com um milagre, mas com um acerto de contas. O nascimento é o êxodo uterino, um trauma que lança o sujeito de um Éden líquido para o deserto do real, onde o ar fere os pulmões como uma pergunta sem pudor. É nesse desamparo original que surge o zumbeiro: aquele que aprende a se dobrar antes de ser dobrado, a sorrir estrategicamente e a oferecer o pescoço com elegância suficiente para que pareça escolha.

Mas debaixo dessa submissão consentida opera o zombador, aquele que faz do inventário da perda uma taxonomia precisa demais para ser apenas dor. Estruturado em cinco atos que funcionam como etapas de uma entropia organizada: fundação, fissura, desastre, depois e museu. O livro usa o vocabulário da precisão para falar da imprecisão de ser. O corpo surge como contabilidade; o afeto, como balanço patrimonial negativo. A infância é o “ponto zero” inalcançável, um alambique onde a essência foi destilada em um dialeto que o adulto passará o resto da vida tentando, sem sucesso, traduzir.

Ao avançar pela anatomia da fissura e pelas geometrias do desastre, o “quase” é elevado ao status de realidade: o que não aconteceu nos molda com a mesma força do que se concretizou. Toda essa trajetória desemboca no Museu da Perda e no Inventário do Quase. Um sistema onde nada se recupera, mas tudo se cataloga; um arquivo de possibilidades mortas e tropeços acumulados onde o último recibo sempre chegará em branco.

Zumbeiro não tenta curar a angústia. Disseca-a. Ao nomear o ruído branco da existência, transforma o vazio em matéria poética, descrevendo a queda com a lucidez de quem sabe que o zumbido é a única frequência que resta quando todas as outras máscaras silenciam.

“O inventário do quase é a única contabilidade que nunca fecha, pois o que não foi é o que mais pesa.”

_outras informações

isbn: 978-85-7105-530-8
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 13x16,5cm
páginas: 152 páginas
papel pólen 90g
ano de edição: 2026
edição: 1ª

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