Cidade. Pai. Praia. Filho. Amigos. Literatura. Política. Filhas. Mar. Elementos do cotidiano que se misturam com outros inusitados: Um disco voador fêmea. Chimpanzés em um supermercado. Cocadas com gosto de corrimão. Oceano de coriza. Uma sucessão de imagens prosaicas e outras inquietantes que, quando superpostas, criam uma atmosfera onde o concreto e o onírico se tocam e se misturam a tal ponto que produzem uma nova linguagem. Uma linguagem que não revela, de imediato, seu propósito, mas que, de imediato, provoca, no leitor, a alegria de reaprender a ler e, como consequência, o sorriso inevitável de quem é capaz de decifrar um enigma. Linguagem essa que se faz necessária para expressar um universo totalmente original, que só existe nela e graças a ela, nem antes, nem depois, nem além. Linguagem inventada e, por sua forma de inventar-se, carregada de uma ironia fina que subverte a ideia de que uma língua nos domina; que faz um convite ao leitor a brincar de também ele subverter esta dominação que uma língua exerce sobre os que a falam, de subjugá-la, de se perceber livre para ser dono dela, sujeito dela, criador dela, em vez de um simples objeto. Linguagem que diz e se desdiz e que nos faz perguntar: podemos confiar nessas palavras que lemos? E que nos responde: sim, mas não pela sua capacidade de nomear o que existe, e sim por nos conduzir a um universo desconhecido que, ao mesmo tempo, desperta reações conhecidas: risadas, assombro, atenção e fascínio. Nesse jogo que se estabelece, o sentido não está relegado a um segundo plano. Há uma ponte clara construída entre o leitor e o poema. Mas atravessá-la não é um gesto automático: avança-se sem garantias, sem mapas, por significantes desconhecidos, em direção a significados que não se fecham, ao contrário, sobrevoam o entendimento lógico do mundo para criticar essa lógica desde a própria linguagem. A poesia de Bruno B. é das que valem a pena: não serve a nada nem a ninguém. E ao recusar-se a cumprir uma função utilitária, é onde encontra sua força política: cria um espaço de liberdade simbólica indispensável para se repensar o mundo. E, por isso mesmo, é capaz de chegar ao leitor e fazer sentido dentro dele.
Ana Alkimim, poeta, guionista e escritora.