Na primavera de um ano como o de dois mil e vinte e seis, Teresa Leão traz-nos Uma pequena fome.
À primeira vista, temos um livro que estreia.
Um primeiro livro que poderia ser um verso longo, muito longo, feito de fruto inteiro em cesta de vime.
Nota-se o cuidado de alguém que queria colher o fruto, sim, mas maduro: há um olhar atento ao movimento das casas e uma falta de pressa que só as memórias antigas carregam.
É precisamente aí que questiono esta ideia de inauguração; a escrita de Teresa Leão está já acostumada a um corpo sensível que perfaz as metáforas receptivas, o corpo poroso que quer esculpi-las na parte física e sensível do signo.
Ouve-se a lentidão da tarde que cai sobre o verso; a fotografia projetando o tempo em cianotipia, ou, como escreve, o silêncio sentado na casa vazia / estremecido / mãos enleadas / a sós.
Neste seríssimo exercício de observação, a Teresa que escreve — ou a musa que faz a Teresa escrever, porque não acredito em sujeitas poéticas, muito menos sujeitos — senta-se numa e muitas esplanadas. Os miradouros que escolhe são um pretexto para olhar por dentro o lado de fora do mundo. Nesse universo do concreto que facilmente se fundirá com aquilo que não se vê, Ruy Belo chega e senta-se também. Como num verso seu, pergunta-lhe, “Não achas que a esplanada é uma pequena pátria a que somos fiéis?”, e habitam esse silêncio.
Mas que não se antecipe neste país de solitude a flecha previsível do solilóquio: como na “ilha de edição” de Waly Salomão, o caderno aberto em figuração assume a responsabilidade de desalinhar o que imaginávamos ser estanque, mas que afinal é um complexo jogo de sombras a perseguir — a voracidade é, aqui, feita coisa que carrega o fruto, e não o seu contrário.
Há então que fazer contas ao que sobrou:
A alforria paga pela náusea conversa com a precariedade quotidiana (a da fragilidade do que é diáfano e quebrável, não a da mesquinhez da desigualdade absurda). É a paisagem “humana, demasiado humana” que se vê da esplanada que desaforadamente segura o fio dos afectos que dão sentido às perguntas, territórios perenes, engolidas entre bombardeamentos e sismos, cirurgias a peito aberto.
A linha da vida que parece amparar é a mesma que se dispõe frente ao precipício: afinal de contas, não houve tempo de arrumar / Os destroços, / As cartas.
Mas eis que subitamente surgem, desavergonhadas, rosas muito vivas, peixes imaginários, o sabor a cereja. E a vontade de permanecer à mesa resiste.
A quem vier para esta colheita, que observe o fruto: uma pequena fome, / o sonho em esquisso. A inteireza do olhar que o compõe no tempo.
Francisca Camelo