ilustrado por Leíner Hoki
O “trio poético-fluxo-literário” de Lara Borba Lopes e Leíner Hoki remete àqueles trípticos com representações da Santa Ceia – esta, porém, profana, deliberadamente profanada. Também aqui vislumbramos a mesa farta e os comensais ao redor, sentimos os cheiros, escutamos o som das louças e das vozes – com sotaque gaúcho. Ao invés de pão e vinho, costela assada em fogo de chão, chimichurri e mate com a água a 75 graus. Aqui, também, pressentimos uma traição.
O ambiente em torno da mesa metafórica – que é, ao mesmo tempo, a mesa onde se serve o churrasco, em torno da qual se reúne a família em festa, e a superfície mais ampla por onde transita a narradora com seus nervos, coração e tripas – é o espaço do familiar e do estranho, da partilha do alimento e do afeto mas, também, do incômodo, do desconforto, da dissonância. O espaço das normas e padrões que se impõem sobre o ser mulher como o grande contorno tracejado que, pedagogicamente, ilustra os cortes bovinos nos açougues – estejamos no Rio Grande do Sul, em Minas Gerais, estado onde atualmente vivem as autoras deste livro, ou em qualquer região do Brasil.
Existencialista, a narradora põe na mesa o “dissabor que conecta o naco ao ser” e parece, entre o ser mulher e o nada, reivindicar o território possível da liberdade, como quem convida Simone de Beauvoir para o churrasco gaúcho. Fibrosa, nervosa, dura, resistente, fazendo das tripas coração – é assim que a voz literária nos atinge, com linguagem forte e precisa, como uma incisão na carne. Descendo a ripa, puxando a faca, rasgando o bucho e mostrando os dentes.
Marcela Fassy