O texto Refúgio, de Renata Flaiban, foi vencedor do Prémio Literário Manuel Laranjeira, promovido pela Câmara de Espinho, em 2019, pela atualidade dos seus temas e a inovação do seu formato. A noção de refúgio vai mudando de sentido ao longo do texto, englobando o teatro como refúgio coletivo em tempos de distração, os refúgios milionários dos super-ricos e superpoderosos, o esconderijo dos criminosos (muitas vezes os mesmos super-ricos), o sonho de um futuro mais justo dos sem poder e a tecnicalidade jurídica que permite a (in)justiça. Nesta visão multifacetada de refúgio, viajamos de forma fluida pela terra, pelo mar, pelo fogo e pela lama tóxica para (re)visitar as catástrofes que de natural têm muito pouco, em Pedrógão, Entre-os-Rios, Mariana e Brumadinho, numa história cíclica de irresponsabilidade política, jurídica e econômica. Quem sofre mais nestes momentos são aqueles que perderam tudo, muitas vezes a própria vida, e que se encontram sem reparação ou empatia da parte das autoridades. Como pano de fundo, o ritmo hipnótico do mar, às vezes calmo, às vezes perigoso e cada vez mais a lixeira do mundo.
Mas se Refúgio expõe sem rodeios as consequências da desumanização do outro, e a relação desequilibrada dos humanos com a natureza, o texto nos oferece também esperança de que as coisas possam mudar para melhor. Confia no coletivo e nas artes como forma privilegiada de criar este coletivo. O Coro e o Menestrel cantam, dançam, revoltam-se, resistem. Sabem distinguir entre a justiça e a injustiça, o acidente e o crime. Mesmo com o poder do empresário, do político, do juiz e do pastor contra eles, e a conivência do executor de ordens e do repórter sensacionalista, não desistem da sua luta pela justiça. As figuras poderosas podem sair de cena para os seus próprios refúgios paradísicos para evitar a justiça, mas os seus gestos e palavras são repetitivos, enquanto os gestos e canções daqueles que têm de improvisar os seus próprios refúgios abrem para o infinito e para os outros. O texto é igualmente aberto, convidando todos para um refúgio, onde o entretimento e a reflexão sociopolítica vão de mãos dadas, e onde o ensemble destaca-se pela paridade de gênero ao nível dos atores. As transformações, para serem possíveis, primeiro têm de ser imaginadas: quando o político é transformado em porco, e o empresário em abutre, já não parece tão difícil derrubá-los. No fim, Refúgio deixa uma pergunta pairando no ar: qual é o seu refúgio? Um livro? O convívio com os amigos? A sua casa? E o que aconteceria se um dia este refúgio fosse ameaçado ou deixasse de existir? Lutaria por ele?
Francesca Rayner