Abrir um livro de crónicas do Luís Rodrigues assemelha-se à sensação de abrir a janela do quarto com os primeiros raios da manhã: a realidade de um novo dia entra sem pedir licença, mas entra com alguma graciosidade. O Luís olha para o agora com a atenção de quem não deixa nada passar (nem a política, nem o absurdo, nem as pequenas tragédias domésticas), e devolve-nos tudo em modo de crónica recheada de um humor refrescante e inovador. Pelo caminho, há comida, porque pensar também se faz à mesa, há futebol e há o nosso provincialismo português, esse bicho tão familiar que tanto dá ternura como dá vontade de o contrariar. E, claro, há sombras boas da literatura portuguesa a acompanhá-lo. Não para os imitar, mas para lhes responder.
E é aqui que este livro acerta em cheio. Vivemos um tempo que se vai tornando mais impaciente, mais polarizado e mais cansado. Neste tempo, o humor não é um enfeite, mas antes uma ferramenta de sobrevivência. Rir, hoje, pode ser uma forma de resistência, mas fazer rir enquanto se comenta o mundo exige um sentido crítico afiado, um otimismo teimoso e uma coragem de não desistir das pessoas, mesmo quando tudo parece empurrar para o cinismo. O Luís escreve desse lugar raro: o de quem percebe o que está errado sem perder a capacidade de gostar do que ainda está certo.
Talvez por isso a escrita dele tenha esta sensação de precisão, como se fosse impossível dizer “quase” a palavra certa. O Luís lê muito. Conhece o livro como um cirurgião que tem de mexer no mesmo órgão cinquenta vezes por dia e, depois de décadas de repetição, já conhece os corpos de cor. As palavras, para ele, são família próxima. Ele trata-as pelo nome, sabe onde doem, onde curam, onde fazem cócegas. Daí dizer, ao abrir este livro, sem grande medo de parecer exagerado, que estamos perante o futuro da crónica em Portugal.
Mas o que une estas crónicas, por baixo do humor, da ironia e da lucidez, é uma espécie de bússola íntima que recusa a desumanização fácil. É isso. Este livro não quer apenas ter razão; quer continuar a reconhecer gente dentro da gente. E, honestamente, nesta época, isso é uma forma bonita, e rara, de se ser muito corajoso e “radicalmente humanista”.
João Miguel Miranda
Professor de Português e membro do Secretariado da Juventude Socialista de Lisboa