Peçonha

Disponibilidade: Brasil

Sobreviverei
Aos pequenos prazeres
inventariar meus pecados

Cadeiras em universidades
Cadelas no cio
Pulo as páginas dos jornais

Escondo a filha perfeita
Duas faces
Falando em línguas
Mãe, quero sobreviver ao amor

R$52,00

_sobre este livro

O livro de Mirian Carla Barbosa revela a face mais sensível de uma mulher que soube converter o veneno em cura; que fez nascer dos baques da vida a palavra poética que enfrenta a dor e traz alívio e esperança. Cada poema é um convite a contemplar a “peçonha” não como substância tóxica, mas como mecanismo de defesa e sobrevivência, como produção de força e coragem. No poema “Língua de cobra”, a poeta afirma que “cada sílaba é um veneno e um feitiço.” E no poema “Mantra”: “minha saliva é antídoto pra memória”.

O livro se inicia com um “Pequeno inventário dos meus pecados”, cuja síntese já está posta no primeiro verso: “Nasci e me disseram mulher”. Com esta potente abertura, o caminho traçado pelos poemas embaralha a condição biológica e a condição social do ser mulher, nascida com “a língua costurada”, embora capaz de articular as “palavras [que] não pedem licença” porque “brotam do sangue, do osso, da terra”. A partir destes versos, as próximas páginas se tornam um convite para uma leitura que “serpenteia” entre o assombro da violência e do assalto da memória e o encontro da palavra transformada em grito de vida que se insurge, que se recompõe, que se materializa.
Com o segundo poema, “Oráculo”, a escrita se abre à quebra da fronteira entre duas línguas – o português e o espanhol – mantendo seu traçado insubordinado contra outra das muitas limitações impostas pelos pactos sociais que conformam nossas identidades. O parto que revela o “hueco”, a falta, se torna “um poema/profecia”. O território se afirma como parte fundamental de uma construção subjetiva que precisa estar enraizada na terra, no chão simbólico, linguístico e também político. No jogo de palavras do poema “Língua de cobra”, o ser, o saber e o território se confundem e se complementam: “sei sou sul”.

A busca da construção de si mesma — “Eu sou uma encruzilhada” — continua nas páginas seguintes e convoca as “mulheres de cor” a participarem do árduo caminho individual que, necessariamente, precisa corporificar-se nas línguas e nas peles do seu entorno, para conformar um “nós” que suporte “os obstáculos e o cânone” que há muitos séculos excluem as mulheres dos espaços da vida social, inclusive da chamada intelectualidade.

No poema “Viagem”, “as dúvidas imensas” se misturam às “buscas seculares” para, uma vez mais, enfrentar-se à “fome de ser a melhor invenção de si possível”.

A partir do poema “Moldura”, no entanto, os versos deste livro tomam outra direção. Em lugar de seguir tecendo os diagnósticos ou de seguir mapeando os obstáculos, a poeta se encaminha para uma espécie de contínua prece poética e assume a responsabilidade sobre seu destino: “Porque eu sozinha me invento e me esculpo”.

“não escrevo para lembrar

escrevo para reinventar

cada verso é um fio no umbigo do mundo

cada pausa, um feitiço de cura”

O poemário Peçonha comove e, ao mesmo tempo, alerta para a condição da mulher que sofre todas as violências cotidianas, simbólicas, políticas e materiais. Ao trazer a sua mãe (vítima de feminicídio) para a cena poética, a autora revive, rememora, mas também toma para si a criação e a vitalidade como condição de existência. A escrita é sua insurgência, sua arma de produzir esperança e sua estratégia de resiliência:

Haverá um dia em que a palavra brotará…

Sem sofrimento.

Diana Araujo Pereira

Doutora em Literaturas Hispânicas, pesquisadora das fronteiras, mediadora cultural, poeta e narradora. Atualmente reitora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila).

_outras informações

isbn: 978-85-7105-464-6
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 14x19,5cm
páginas: 52 páginas
papel pólen 90g
ano de edição: 2026
edição: 1ª

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