Onde os meus pedaços cairão? faz-nos um convite a caminharmos. Uma vez que não nascemos prontos, é no contínuo movimento que nos tornamos sujeitos e, nesse processo, nunca somos, sempre estamos. A cada página avançada, somos apresentados a diferentes jornadas desse processo que não é possível sem fricções. É no processo de perdas e ganhos que nos tornamos.
Distante da ideia ilusória de Gênese fundante, os 48 poemas, ou melhor, os 48 pedaços que se transmutam em poemas, apresentam-se como Gêneses constantes. É urgente nascer sempre. É inconteste que a cada nascimento um pedaço de um antigo eu se perca para que o novo surja.
O primeiro pedaço a cair, mesmo consciente da morte, ao entender o processo, não se conforma com o popular sete palmos do chão, por isso, exige lugares outros, onde seja possível continuar, embora o peito esteja morto em matéria, caminha continuamente em versos, palavras e desejos, pois escolhe as fraturas das fricções, lá onde vive o fruto proibido.
O processo contínuo do se tornar é percebido, sentido e experimentado na eternidade dos momentos finitos do cotidiano. Seja na nova ruga percebida, no mais recente aniversário, na ausência do cheiro do mingau de aveia, que não é mais preparado pelas mesmas mãos, na mudança de estação ou, ainda, no rompimento de um antigo relacionamento, que tudo se abre para o novo, pois os pedaços insistem em continuar caindo sempre. É da fratura das perdas e ganhos, da oportunidade que é viver que todos os pedaços se formam. A continuidade da vida não é fundada apenas de lembranças e experiências boas, mas de tudo o que compõe o viver, inclusive a dor, a saudade, o medo e o desejo de continuar eternamente vivo sem deixar nenhum pedaço cair.
Onde os meus pedaços cairão?, embora seja uma pergunta, em cada poema encontramos respostas para novas jornadas, ou delas experimentamos fricções entre o passado, o presente e o futuro. Fricções essas que respeitam e valorizam a ancestralidade para mostrar que, somente dessa maneira, é possível olhar para o passado, entender o presente e projetar um possível futuro, mesmo, quando este último, se apresente como morte, pois se trata apenas da morte da impossibilidade do continuar.
Ao ler esses poemas, você perceberá que não importa idade, tempo ou estação. Mas a experiência do se tornar. Nas diferentes Gêneses, nosso eu sempre se prepara para o Outro que virá. Dessa maneira, os meus pedaços sempre encontrarão com os seus e um novo e contínuo ciclo de fricções se inicia, mesmo assim, em nossa ânsia nos perguntaremos continuamente: “Onde os meus pedaços cairão?”.
Que ao caminhar por esses poemas, a experiência do viver se apresente como oportunidades de ser, sentir e refletir na compreensão da urgência da continuidade das memórias, sejam elas flores ou fatos, amores ou dores. Que Onde os meus pedaços cairão? pegue-se por inteiro, vire-se do avesso, rasgue-se e remende-se, que te faça em mil pedaços, pois não nascemos prontos. Estamos em processo e junção de pedaços.
Danielle Gonzaga,
Professora e escritora. Everton Castro