De tantos apontamentos feitos na totalidade de uma profícua obra, ainda hoje objeto de inquietação para os que possuem relações com a literatura, Jorge Luis Borges fez mais um: são os objetos humanos extensões de um corpo físico, incompleto por sua natureza. Pode-se acrescentar que o humano cria e recria objetos para alcançar o desconhecido, na exigência do que, por ser conhecido, não mais responde às questões de um tempo.
Em Obséquio ao maestro, Eduardo Rabelo Feitosa parte de ponto semelhante. No conto, é o violão a extensão do corpo do protagonista, não nomeado e subjetivado porque, através da física das cordas, busca dar contorno àquilo que existe no peso de um nome único e absoluto, Deus. A música bachiana, adereço constante da narrativa, é a condutora de um caminho que, se existe, ainda não revela a existência disto ou daquilo, convida o olhar alheio a examinar os recônditos dos sacrifícios imanentes às grandes tarefas terrenas. De Odisseu a Dante, de Fausto a Riobaldo, de um violonista ao seu pacto, todas as linhas temporais convergem na mesma matéria: a procura.
À maneira do ensaio, as referências mobilizadas pelo autor transitam do início ao fim, embora a arquitetura não torne o leitor incólume às suas próprias inquietações. Estas se assentam nos dois artifícios principais da trama, o primeiro ligado ao constructo mental do protagonista, cujo presente é concretizado de acordo com as decisões tomadas por si, o isolamento, o jejum prolongado, a prática extenuante com o violão, a procura, sobretudo; e o segundo estabelece a destruição da autoexpectativa do protagonista, impelido pela organização de um mundo além de suas intenções, desmanteladas pelo encontro do que não se procurava.
Fato é que a obra sugere a dubiedade e a incerteza próprias dos grandes temas humanos, em que as antinomias dependem das pequenas inclinações de um ângulo. Os conflitos lógicos são inevitáveis. O leitor assumirá como justas as ações de um personagem que implode o projeto do protagonista ou as tomará como maledicências, tentações? E ao chegar à resposta, já nas últimas linhas do escrito, talvez o leitor precise voltar ao início, tomado pela pergunta: deveria esta obra ter outro título?
Emanuelle S. Matias