Por que você faz poemas? Se acaso um poeta escapa de responder em público a essa pergunta inevitável, toda obra pode ser lida como um inventário de respostas. Neste livro, o catálogo de motivos surge logo de início, quase como um manifesto: a enumeração urgente, oscilando entre o íntimo e o coletivo, o trivial e o filosófico, em diálogo com outras respostas célebres do universo da poesia, da canção e do cinema.
A citação — o ensaio de reproduzir uma paixão de leituras, como diz Antoine Compagnon — é um motor decisivo neste livro de estreia de Luiz Felipe Riva. A conversa apaixonada com grandes poetas atravessa os poemas e se converte em matéria elementar, em que convivem o deboche e a epifania, a voracidade e a delicadeza. O diálogo com os textos de origem não se organiza como quem ergue monumentos, mas como quem deixa bilhetes nos corredores, pede emprestada a um vizinho uma xícara de açúcar sem intenção de devolver. Com a altivez de quem sabe que prepara a receita mais excelente e que todo banquete é um jogo perigoso.
Ao mesmo tempo, quando enumera o que roubaria, nos surpreende na coleção que monta com seu butim, e isso é tudo, na poesia. Poesia é a arte da escolha da palavra; a colisão de palavras cantada por Bandeira, as melhores palavras na melhor ordem de Coleridge, a palavra poderosa de Dickinson que, quando escrita, até começa a brilhar. As palavras que não prevemos e que agora nos são servidas de forma tão natural que é como se sempre estivessem estado ali. Um bom poema temos vontade de subir no banquinho no meio da praça e repetir tal qual: “da lua: as cicatrizes; das cicatrizes: as formas; das formas: os rios…”. Como em “Diário de um sonho que se repete” ou em “Pensamento”, as imagens se somam em mutações inesperadas, saltos líricos, deslocamentos de categorias. O poeta joga com as palavras como num pega-pega de infância, abrindo fendas de percepção e sentido. Este, um dos fios condutores deste livro: a ludicidade de pensar as semelhanças e os desvios, em um processo que nos faz reconsiderar o que é uma coisa, o que é outra.
Aqui, o perigo está em toda parte, mas não paralisa. O perigo é vital. Com essa sabedoria, o eu lírico encara tudo — o amor que fere, a morte inevitável, o risco de perder (e de achar, ainda mais) as palavras. O silêncio cheio de peixes é um livro que arrisca, e é também por isso que lemos poesia: testemunhar a beleza de um percurso intrigante e luminoso como o desta estreia.
Moema Vilela