Você já sabe/ apreendeu que do chão não passa.
A morte. O desaparecimento. O vestido que não cabe. O corpo duplo, a separação. O corpo petrificado que insiste em nascer.
São múltiplas as vozes, os narradores, os rostos e as identidades que se alternam e se transformam no belo livro de estreia da escritora carioca Fernanda Rosado. O livro surpreende por apresentar uma escrita madura, certeira, por vezes mordaz, ainda que terna e amorosa.
O volume é composto por seis contos, cada um narrado de uma forma e de um ponto de vista diferentes.
O primeiro, Leito, é narrado em primeira pessoa: a voz de um homem hospitalizado à beira da morte. Em O rosto no chão, Dalva, faxineira de uma repartição, vê o amigo, colega de profissão, misteriosamente desaparecer. Em Provador, uma adolescente tenta acomodar seu corpo num vestido que não cabe. Liana traz uma narrativa mais fragmentada, em que uma adolescente vive a dor do desaparecimento da melhor amiga. Já em Carta à irmã, o tema do duplo, das gêmeas desgarradas, reunidas, tempos depois, por uma carta. No conto final, Leito II, um nascimento, apesar do medo, da dor, das histórias estranhamente guardadas.
O rosto no chão flerta com o realismo fantástico, num tom ao mesmo tempo melancólico, ao acompanhar os espaços e a visibilidade desses corpos. O desaparecimento de corpos que não se notam, que não se sabem, que ainda não se foram, que ainda não são.
Entre crueza e crueldade, há a leveza da relação possível. O estranho da vida guardada em vidro: um feto petrificado. Como dizia a poeta Sophia de Mello Breyner Andresen:
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.
O que se depura das histórias narradas por Fernanda são as relações, que vão se tecendo também nos detalhes e no que eles guardam: o vestido, o uniforme, o feto no vidro, a pele mordida.
Lucia Berlin (1936-2004), grande contista, em um estilo diferente do que se verá aqui, cria personagens sempre atrapalhadas, que vão tropeçando em suas fraquezas. Não as ridiculariza, nem dramatiza suas desgraças ou tem pena delas. Costumava dizer aos seus alunos: “Diante de uma princesa e uma servente, Tchekhov trata as duas exatamente da mesma forma”. Podemos dizer o mesmo das histórias aqui narradas por Fernanda.
Entre os corpos que desaparecem cruelmente na repetição de um destino não há redenção nas histórias de O rosto no chão. A vida insiste, contudo.
Você já sabe/ apreendeu que do chão não passa.
Maíra Matos