O funcionário do mês é um poderoso retrato das engrenagens do subemprego, revelando os bastidores da indústria do fast food com um olhar afiado, repleto de humor ácido, empatia e consciência de classe.
A escolha por uma narrativa em primeira pessoa reforça a dimensão testemunhal da obra, ao mesmo tempo em que constrói um narrador carismático, com timing narrativo e senso de observação agudo — traço que lembra, em alguns momentos, autores como Lima Barreto, Ferréz e Bukowski. Sem perder a leveza da linguagem coloquial, encapsula a experiência de alienação, desgaste emocional e sobrevivência.
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_sobre este livro
Poucos autores têm um talento bem desenhado para a crônica: capturar aspectos essenciais, particulares e universais, muitas vezes do próprio cotidiano e da vida pessoal, para fazê-los emergir em literatura, não é uma arte fácil. Ainda mais quando o humor vem afiado e certeiro, mesmo diante das situações mais adversas e abusivas. Em O funcionário do mês, Ronaldo Lages alcança este feito. Ainda mais: é uma crônica em prosa longa, ou um ardiloso quebra-cabeças de pequenas histórias que ilustram uma trajetória pessoal em uma das maiores (e mais sacanas) multinacionais de fast food, “a famosa comida rápida que consome o mundo — ou seria o contrário?”.
Este é um livro para causar indigestão, dessas que vêm só de sentir o cheiro de chapa oleosa e carne de qualidade duvidosa, uma obra escrita entre gordura, suor e exploração trabalhista. Ronaldo não poupa sua picardia para mostrar uma cozinha tenebrosa que elabora seus sabores viciantes em “receitas secretas que nem o Diabo sabe onde ficam”, revolvendo na própria memória como quem mistura uma maionese vencida para nos trazer um desfile de gerentes, subgerentes, balconistas, chapeiros, clientes enlouquecidos, dentre tantos personagens que cruzam nosso cotidiano incólumes, muitas vezes anônimos, atuando em bastidores que preferíamos não enxergar. Ronaldo revela o que há detrás do sorriso da propaganda e do balcão de atendimento, o que apodrece no estoque, o que deteriora nas relações entre funcionários saltitantes e (des)motivados. São os bastidores do delírio capitalista desnudado de suas falácias, numa época pré-uberização, mas que já fritava em óleo velho as relações trabalhistas, em continuidade de práticas patrimoniais, quase escravocratas, que marcam a pele de milhões de trabalhadores pelo mundo. Em O funcionário do mês, nós rimos para não chorar perante a realidade do consumismo e seus tentáculos “a distribuir subempregos de segunda a segunda”, cozinhando a vida de jovens mal pagos e atirados a um ciclo de opressões. Mas, além de um riso nervoso, Ronaldo nos provoca boas gargalhadas de catarse e escárnio proteico, um livro com um sabor bem nutritivo de vingança.
Celso Suarana
_outras informações
isbn: 978-85-7105-409-7
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 14x19,5cm
páginas: 140 páginas
papel pólen 90g
ano de edição: 2026
edição: 1ª