Todas nós, em algum momento, deparamo-nos com o mapa misteroso de nosso próprio tormento. Quiça por acreditar na premissa de que o amor é trazer à luz nossas tripas pelo inverso, cavamos a terra em busca do ouro prometido até desenterrar aquilo que cedo ou tarde será nosso próprio engano: amar não deveria ser a medida de nosso caminho, apenas as marcas de nossas solas a vicejar vida.
Tal como uma fotografia, as diferentes estações destes signos, tão velhos como o diabo, atravessam página por página: entregar e perder-se no outro. Enquanto os dias de verão ficam mais curtos e o calor diminui, aproximamo-nos da desintegração que todo inverno traz. No derradeiro fim, somos nós e a fome dos lobos numa noite qualquer.
Merecida agonia, de Camila Felix, é um livro para estar em nossa cabeceira e não nos deixar esquecer, como Lacan nos trouxe, que buscamos sempre o que falta na gente em alguém que também não possui ou como a própria autora diz:
ele inventa meu desejo
até onde não existo mais
Cada qual lida de sua maneira com o desvelar da falta de si no outro. Algumas cultivaram rugas com os nomes dos amados na testa, outras se sufocaram com gás. Camila, por sua vez, rejeita o silêncio para escapar da própria morte.
Seus dizeres nos trazem muito sobre angústias que nos moldam e como encontramos ou não, a esperança em meio ao caos diário.
Sei que minha agonia dá diariamente as mãos à angústia.
Sem dúvida, apenas o tempo tem o poder de dizer algo sobre um texto, mas como editora desta obra, sei que existe uma característica fundamental que não o torna perene, uma alquimia que transforma uma experiência individual em algo coletivo, algo que tantas e tantas se identificam, pois no fim da contas, nós também temos medo de.
Debora Rendelli