Você sabe nadar?
Penso no bebê flutuando no líquido amniótico, sem se saber vivo, nem gente, nem homem, nem mulher, enquanto já o estão nomeando do lado de fora da barriga da mãe. Vai ser aquilo ou aquele outro. Quando será que começamos a significar o insignificado e vemos o desejo do outro sobre nós, não como possibilidade, mas como horror? Acredito que quando esse desejo se impõe. Quem temos que ser, como temos que lidar com as coisas, quem somos e quem vamos ser… A verdade é que a revolta da mulher por tais questionamentos chega cedo. O “não é isso que sou” tem muita força. Mesmo quando ainda não falamos, já é difícil respirar.
Por conta da falta de ar, é bom lembrar que, antes de ser gente, fomos peixes. Flutuamos durante a vida toda como tais bebês. Darwin. Então, veio a evolução. Somos aquilo que, com pouca consciência do ser, se tornou pensante, pulsante, desejoso… julgador.
Malditas. Mal-Ditas.
O maldito só o é porque é capaz de ser dito. Filho da linguagem que tenta burlar a incompreensão, sem nem sempre ser bem-sucedido. O vitimismo só existe na percepção da crueldade do outro. Só existe ao perceber que as necessidades dos outros existem, mas dói atendê-las. O bebê nunca se enxerga vítima, ele é só ele, e ainda está na posição de animal, assim como um peixe também.
Mas você sabe nadar?
Lacan, com seu sarcasmo, diz que a mulher é o sintoma do homem, o que sempre me arrancou um retorcer dos ossos e ranger de dentes, não por pouco. Pensar que partimos e somos de uma fantasia que não nos significa de uma forma que consigamos reconhecer sempre me trouxe tristeza. Seja qual for a interpretação que a psicanálise tente fazer desta frase, ela nos incomoda, mas, na verdade, o que Lacan quer dizer é que a mulher é muito mais real e verdadeira que o homem, já que é livre para não ser o que o mundo espera do falo. Ela, portanto, estaria liberta da fantasia. Seria aquilo que o homem gostaria de ser, e não pode.
Sabemos nadar?
Não sei, mas tentamos. Por conta do que dizem sobre nós, mulheres, às vezes parece importar só se nossa genialidade consegue ficar guardada a sete chaves como um segredo que não contamos para ninguém, como quem fica o maior tempo sem conseguir respirar embaixo d’água. O quanto você consegue? Será essa a regra do mundo para que consigamos sobreviver?
“O quanto você consegue ser peixe?”, respondo que pouco.
Me pergunto se é por isso que muitas de nós querem ser sereias. Sem um sexo, apenas com uma voz que, finalmente ouvida, aniquila o que nos aniquilaria.
Aqui, nesta coletânea, há sereias, e elas cantam. Alto. Se você não souber interpretá-las, são malditas, mas se souber, Darwin pode te tirar da água e fazer evoluir.
Será mesmo que você consegue andar?
Paula Febb
Escritora, roteirista e psicanalista. Seu último títulos é )Vermelho (2024), da Darkside Books.