Há sempre uma data enferrujada em nossa memória, extraída do ferro de algum sangue deixado pelo caminho. Vamos plantando nossas histórias, arando na terra dos dias tudo aquilo que somos, o que perdemos e o que deixamos de ser. Esse movimento é constitutivo de nossa humanidade e tão naturalizado que nem percebemos, tal qual placas continentais se movendo e o eterno movimento entre seca e abundância.
Existem, no entanto, certos lugares arrebatadores, capazes de inverter a lógica dos relógios, cristalizando uma porção do tempo em nosso presente contínuo: uma profusão de pássaros se chocando contra janela, o primeiro beijo de amor, crianças removendo o lixo pela fome, a palavra mãe inaugurando o dicionário de afetos, a morte de um filho.
Glória, em seu novo trabalho, nos entrega a menina que não se deitou no seu colo, uma história escrita com a maestria de quem sabe que uma cicatriz é obstáculo ao esquecimento.
Uma mãe sem a outra traspõe os abandonos acumulados em cada sermão que levamos desde a tenra infância exclusivamente por termos ventres, por desejarmos sermos senhoras de nossa própria história e por correr o sagrado risco de nascer para viver ao invés de contar os dias regressivamente. Não devemos temer: o que foi perdido também já foi abraçado e isso basta.
O que é ser mãe, ser filha, ser derrotada, ser vitoriosa, sem passarmos por uma culpabilização? O que é ser mulher sem sustentar as falanges dos sedentos de cobrança, por retidão, feminilidade, zelo, pureza, pela responsabilização dos males e apagamento dos logros? E o que é ser mãe se não for um momento?
Essa é a condição errática deste livro, que não apenas conta uma história presente, mas sumariza um enredo secular.
Mal sabe Glória que nunca deixará de ter 19 anos. E que Raquel é.
Duas, somos cada uma.
E aos milhares, todas nós somos as duas, Glória e Raquel. Linhagem.
Debora Rendelli