Os relatos de Paulo Cunha neste livro são um desafio à ideia tradicional de incapacidade das crianças e um elogio à sua inteligência e sensibilidade. Merece ser lido!
Maria Clara Sottomayor
Este livro realiza, de modo saboroso e brilhante, o ideal da melhor literatura: a genial concretude de detalhes desses contos, com a viveza e a verdade de seus personagens, tem o poder de contagiar o leitor e despertar nele o tesouro de suas próprias lembranças: de infância e juventude — vividas em outro tempo e lugar, distinto contexto familiar etc., mas afinal: De te fabula narratur… Não nos ensina nada de novo, mas nos brinda o que importa: a memória de nosso passado, a raiz de nossa identidade.
Jean Lauand
Tinha razão Montesquieu ao recomendar um par de horas de leitura para dominar os males da mente, do espírito e até do coração. Ao lermos o Inventário de menores de Paulo Ferreira da Cunha, podemos confirmar a justeza deste conselho e desta afirmação. De facto, ao tomar contacto com memórias próximas ou distantes, compreendemos a força da palavra, do livro e da leitura. Através deles podemos conviver ao mesmo tempo com quem está próximo de nós e com quem estando longe no tempo torna-se extremamente próximo. A memória permite contarmos com o testemunho da eternidade. E a palavra escrita permite reunirmos num mesmo tempo gerações distantes que se tornam próximas. Como disse Umberto Eco, quem não lê vive apenas a fugacidade do momento, enquanto quem lê pode viver o tempo longo das civilizações que chegam até nós, nas suas diferenças e complementaridades. Quem canta seus males espanta? Mais do que isso! Quem lê revive tempos e vidas que nos levam a aprender a sermos melhores, porque somos pessoas que dialogam e se completam, ao longo dos tempos.
Guilherme d’Oliveira Martins
Façamos o “inventário” das nossas menoridades. A aleturgia do conto é uma forma de dizer a verdade de si aberta à verdade do outro. A hetero-autoveridicção dos dez contos não tem fronteira. Neste livro não está escrito “fim”, “conclusão”. A obra funciona como estímulo ambíguo que provoca e acolhe as projeções imaginárias e experienciais dos leitores. Que haja mais 10, 100, 1000… “inventários de menores” para que possamos dizer com Terêncio “homo sum et nihil humani a me alienum puto”. Sou homem e nada do que é humano me é estranho.
Cândido da Agra
Dez Contos. Em cada um, um “menor” no papel de personagem principal. Cada qual com seu nome. (…)
À medida que lemos, o ritmo da escrita e o encanto sentido na leitura fazem-nos passar, quase de corrida, de conto para conto e, pouco a pouco, aqueles nomes vão-se diluindo e, em vez deles, desenha-se apenas um outro, sempre do mesmo menino. E apetece-nos pedir-lhe que nos deixe usá-lo, também por nós. E apetece-nos aplaudi-lo, com o gozo próprio do aplauso. E apetece-nos, por fim, chamar por ele, assim:
— Paulo!
Álvaro Laborinho Lúcio