As coisas estão fora do lugar. Você mexe nelas e de repente percebe que elas estão mexendo com você. O copo de cerveja, as roupas no armário, a rosa na floricultura, os seus dentes no espelho. Depois você fala: cerveja, roupas, rosa, dentes, mas aquilo que era vivo nas coisas desapareceu das palavras. Caio Vinicius sabe disso, desde o seu livro de estreia, publicado em 2020, guaiá-m-u. E é talvez por isso que tente devolver à linguagem aquilo que nela parece ter se apagado. A presença das coisas. Sua estranheza.
Aqui, somos apresentados à ideia de que no mundo das substâncias “há um contínuo rumor / a caçoar das nossas vidas”. Isto é, aquilo que constitui as coisas, sua mais mínima existência, está falando. Mas não conseguimos entender muito bem o que essa ladainha significa. Resulta então que História das substâncias é também a história do nosso desencontro com aquilo que nos cerca. Nós chamamos esse desencontro de incômodo – “o que vive / incomoda de vida” disse certa vez João Cabral de Melo Neto, outro poeta das coisas e das substâncias.
É assim, por exemplo, que um dos poemas mais comoventes que você encontrará aqui, fala de um casal que mal consegue pagar o aluguel e segue “tentando construir uma vida”. Enquanto eles debatem o que é uma vida (para um, “kaiser futebol mortes também partida praia”, para o outro, “cartas tv bahia marlboro câncer”) o poeta percebe, num encontro, que “o tempo / realizando aquela rotação da onda sobre o / quebra-mar / estoura”.
O que esperar deste livro que você tem em mãos agora? Uma história do café, uma arqueologia da dor, a extração da substância das flores e dos vegetais, uma teoria das coisas que caem à nossa volta (uma jaca, amêndoas, nossas bundas sobre a cadeira em qualquer boteco, um pai) e, sobretudo, um poeta que sente as coisas doerem como nós sentimos as coisas doerem quando mexemos nelas e elas gritam de volta.
Só que isso é muito raro, efêmero, e difícil de perceber. Mas o poeta de História das substâncias consegue fazer isso muito bem. Com sua “camisa do pato donald / que foi feita nos anos noventa” ele se senta com uma cerveja “sul-americana em frente aos olhos (…) fingindo inocência”. Essa mistura de infância com embriaguez é o estado perfeito para a tarefa mais importante da poesia lírica: capturar as mínimas explosões de agora. E Caio Vinicius o faz nas mais pequenas substâncias.
Rafael Zacca