Uma epopeia em haicai
Desvirtuar o haicai sem deixar de prestar deferência a ele. Está posto o desafio de Elias Fontele no sedutor universo de Haicaindo, um livro moderno que provoca reflexões sobre o ser e as coisas do mundo, fazendo arte com o pouco espaço (em termos de significante) que o famoso modelo japonês de poesia contemplativa deixa para a habilidade do poeta.
Elias, professor, filósofo e multitalentoso artista, olha tanto para a placidez fenomênica de Bashô quanto para as provocações em haicai de Alice Ruiz para elaborar seu próprio método de dizer a partir do extremamente econômico, do escasso recurso poético, o mundo a partir do mínimo. Afinal, sendo um raro poeta que se dedica principalmente às formas fixas, ele se debruça sobre o método acima de tudo, tendo claro entendimento de que, no haicai, só se produz semanticamente se tivermos a perícia do olho técnico.
Assim, Elias criou seu método haicaindo, um continuum de haicais triplos que inclusive ultrapassa os poemas individualizados que acompanhamos em cada página, como se fosse possível escrever uma espécie de epopeia de haicais. Por contraditório que possa parecer, o haicaindo sugere um pensamento em fluxo, onde uma reflexão pungente leva a outra, criando uma teia de olhares que demonstram sua sensibilidade, que não se limita à impressionante capacidade de criar ricos jogos de palavras, silogismos e figuras de linguagem.
Por exemplo, em Haicaindo lemos um ávido panorama da vida moderna, inoculada na morfologia mesma das palavras e das sílabas. A visão paisagística e zen de Bashô dá lugar aos algoritmos, à ansiedade moderna, à genética. Ao mesmo tempo, também se desenterra a paisagem interior, alternando entre razão e ser, refletidos no mundo material que nos rodeia, em imagens como as do sol e da lua. Humor, sarcasmo, otimismo e pureza também dançam e balançam, como se, contrários, não pudessem residir no imaginário proposto.
Finalmente, vale ressaltar o valor metalinguístico desta obra, já que Elias Fontele mostra também uma alta capacidade de se dobrar para o interior de seu método, com a lucidez de quem entende que o haicai é também sobre folhas de papel, tinta e livros. “Lá estão livres / Mas aqui sempre digo: / Eu estou livro”, assinala ele em um dos mais instigantes poemas. Sim, ao praticar o haicaindo, estamos livros. Livros das amarras de uma poesia engessada. Livros como este, l(i)avrado na longevisão onipresente deste poeta diferente e audaz.
Ciro Inácio Marcondes