Gira grita no giramundo existencial. Um girassol de sete santíssimas e giratórias profanações incompletas de tudo. Junções de girândolas reflexivas, rodopios da gíria e da lágrima: gambiarras do pássaro e geringonças dos sinos; abandonos gingados do céu e germinações digitais da terra. Gira arredonda a eternidade e a relampeia na dança e na dor na gincana vivente. Gestas de Dona Eva, em fornadas criatórias de planetas, de fogos de gigabytes naturais, de giros espiralados de eternidade. Ledo engano admitido: o gesto perpétuo pertence a Ofanim (roda rodante!) e a Exu (glutão renascente!). Aos ossos, à carne, ao sopro, resta o gesto do sonho de renascer até onde der. E, o germe na giração do relógio redescobre um tempo faminto de rios, de glórias, de vazios, imperdoável na função de engolir o centro, o globo, os deuses. Guia a Gira e vive uma vida em um dia, num orvalho causador de tempestades, num leito no qual o maluco do centro, dervixe esquecido, gira no asfalto ou na porta da Igreja. Nele, gravita o gongo de Angola e guau’ das matas de pedras azuis da Acayaca ibiti-ruída pela sanha do giro minerário, evidentes nos seus pés grassados por feridas de pecados anônimos e gostos murados por ruas direitas. Seu dente não é de ouro, é podre, e gorjeia o silêncio gorado de Deus, na medida exata do gozo absurdo da sabedoria gravitacional de ser tocado pela solidão azul das procissões e dos giros. A geometria entortada pela dança vagabunda dos becos, para-raios prematuros de graças. Incômodo e glorioso como o tonteio do transe do sono e na gramática do verão borboletado, tão feito de vazio, como um paiol de estrelas governantes das sombras, na imaterialidade universal, nomeada pelo pai como gracioso inconformismo de sentidos. A busca de Gira é a ancestral transgressão da certeza contida na paz girante de uma criança. Toda criança é um dervixe, e assim, todos nós já o fomos, na criancice, divinos. Brincar de girar o pequenino desejo de nada mais existir além do rodar é o gigantesco curto-circuito dos gestos escritos adiante. Nenhum grafema, nenhum gráfico, nenhuma grade conseguem impedir a liberdade sem motivo, presente no fado do poema e no eco dos nascedouros das gavetas da avó, confluída no fruto da fé primaveril, de extinta aparência, revigorada pelo descaminho do simples rodar com os pés na grama e com a cabeça nos grávitons de tudo, seja do canto apassarinhado, seja do riso guapo da inocência. Gire como um infante, gire como um louco, gire junto com Gira!
Giordano Leonardo Alves
Escritor de Santo Antônio do Itambé/mg