uma poesia que é mistério e encantaria
desde que os povos africanos foram sequestrados e trazidos como escravizados para as Américas, opera-se uma lógica colonial de silenciamento, uma violência não apenas física, que corta línguas, mas também simbólica: o memoricídio de nomes, origem, família, costumes, cultura. línguas.
porém há um silêncio contra-colonial levado a cabo pelos povos escravizados e seus descendentes ainda hoje: o segredo.
o segredo tem sido nossa arma de resistência, repassado oralmente, porque sabemos que a escrita pode ser rasurada, modificada, silenciada.
aprendemos o segredo nos terreiros e capoeiras, nas gingas e mandingas; no samba e no pagode, no jazz e no blues, no rap e no funk; nos grafites, pixos e na poesia.
e é na poesia que cassiano figueiredo não apenas mantém o segredo, como afirma na escritura o nosso poder: escreve e se inscreve. para que ninguém mais manipule, rasure, silencie sua fala. porque só ele poderia criar esses poemas, verdadeiros ofós, encantamento.
com uma linguagem impressionante, o poeta dobra a língua, assumindo ironicamente a voz de supremacistas, rememoria o passado para enfim retomar a sua própria língua, nossa língua, e dizer: venha ver o mistério, ele é escuro, é encruzilhada, e é aláfia: caminhos abertos. uma ponta de lança no futuro-agora.
entre, ouça e se deixe também encantar: axé-ô!
nina rizzi