Em Enquanto caía me distraí, livro que nos convida a olhar para outra coisa que não aquela que nos faz cair, quebrar ou colapsar, Adriana Massocato começa com um fim, uma fronteira “como a barreira que a carne impõe/ aos dentes sedentos daquilo que se esconde/ no roer de unhas”.
Já ao início da primeira parte, “Enquanto caía”, o eu lírico nos lembra que “é preciso criar uma figura para apresentar às pessoas”, esse fundamento básico de nós mesmos que serve de chão sobre o qual o outro tem por onde vir até nós. Funciona, até se descobrir que essa figura se mantém por meio de “costuras feitas à mão”, é frágil, é instável, pode facilmente se desfazer. A base que nos sustenta para o outro pode desabar, e desabamos juntos.
O trajeto de uma queda é como um caminho pelo qual nem se avança nem se recua, não se vai para a esquerda e tampouco para a direita, como se cair fosse deslocar-se sem sair do lugar.
Na trajetória vertical que constitui a primeira parte, o eu lírico despenca na direção de quem é, segue o rastro daqueles que lhe vieram antes, que assim como ela “carregam barro nos sapatos” e cai em si com o impacto do eu.
Na segunda parte, “Me distraí”, a poeta de repente esquece que estava caindo. “Sendo”, “Escutando”, “Lendo”, “Amando”, “Criando”, verbos que intitulam poemas a apontarem o tempo verbal da distração, do movimento inconcluso, sua visão se abre para a perspectiva de um mundo a ser descoberto, muito mais amplo do que o ponto ínfimo em que lhe caberia cair; um mundo de “outras mulheres” que “carregam a si mesmas”, do “tempo das coisas que levam tempo”, de “tudo que existe” e “tudo que não existe”. Ao se esquecer de que estava caindo, o chão no qual se estatelar não faz mais sentido — o choque vem do contato com o outro, com o qual descobre-se que outros também somos nós, o amor redescoberto, o amor de um homem, o amor para um filho, por lembranças a que se agarra “como a segurar as mãos de quem se afoga”.
A terceira e última parte ressitua, a distração dá lugar ao foco, “Farol”, que lança luz sobre outros territórios. Há onde se está, e há onde há para se chegar. Há o que já havia e o que a poeta haverá de deixar de sua autoria. Pois “o poema misturou-se à poesia”, como a água numa queda d’água, “um nome que assina um livro”. “Fora isso, nada.”
Daniel Indalécio