Gostava de ser anjo
reter teu sexo dançante
entre as asas
abrir-te a boca e sufocar-te com
os segredos dos deuses
(não existem)
prender-te à vontade
há vontade
no arabesco das nuvens
(Segredo, página 9)
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_sobre este livro
Lia Cachim escreve com o mundo e para o mundo, aconteceu-me pensá-la mundana, canta lugares que também percorri, quase tenho vontade de lhe perguntar quem são os seus pais? Talvez me canse da estética fina desprovida de histórias. Ao ler-te, querida Lia, vi, entre o vinho e o fumo, de onde nascem as ficções: cinema ambulante.
Percebi “ser o mundo e o mundano”.
Divaguei no ritmo da sua escrita entre a reinvenção estética e um tempo onde se deseja o absolutamente futuro. Encontrei a frescura de um olhar sensual sobre o próprio corpo que mais não é que ramificações dos outros. O corpo passional que vislumbra o outro. A poeta afirma que não é ela quem escreve, é preciso ser-se sempre outrem para que a poiesis tenha lugar. “caio no vértice” diz-nos, porque, parafraseando Tarkovski, é necessário que o artista pereça, pois nunca é o eu do artista quem cria, mas sim a humanidade atravessando esse corpo, e de quanta humildade necessita o ser para que tal aconteça. Percorro as suas palavras entre o sorriso de um olhar lúdico e o dramático de um olhar abismado: “É preciso dar balanço/para se mergulhar/no abismo”.
A sua escrita dança entre vários tons, algum sarcasmo, esse riso nervoso atrás do tremer dos dentes que nos assola o desejo. “Encontra-me/onde caçam as libélulas.”
Regozijar ao ler sobre o conforto feminino face a um homem nu. Leio a efervescência de uma sensibilidade feminina, oxalá “veja gente despida na rua”, e assim possa deambular com a força de um ventre feminino. Ser a violência de um sexo feminino que prende, que pende, e que penetra o masculino com os “segredos dos deuses” cantando assim a vontade. Haja ganas de um corpo que ovula. Eis a erecção insaciável, verticalidade do desejo.
Atravessando a escrita encontro-me na questão da sanidade, no receio de um erro colectivo, mamíferos que se excedem, que haja uma outra animália talvez mais próxima do seio materno afirmando então o mamífero em si.
“Um dos muitos sentidos da vida”, caminho na leitura entre a Egometria e a Geometria cuidando a captação de um olhar que pousa sobre a luz do fim de tarde, e assim questionando “Percebemos?”. A impaciência com que nos poderíamos dirigir à existência humana questionando-a. Se estes mamíferos que se esquecem do seio da sua origem serão por ventura capazes da beleza de um universo que não cessa de se abrir.
“Queria jogar um jogo/eu e tu contra o outro/sim/esse tipo de jogo/o meu polegar na tua testa” e talvez assim o indicador encontrasse o centro entre as sobrancelhas e o pressionasse encontrando o lugar neutro de uma desaceleração. A leitura desta escrita imprime o tom de um jogo que se interrompe pelo peso deste outro dedo cuja razão é somente contemplação.
Catarina Marques Domingues
_outras informações
ISBN: 978-989-9348-23-3
revisão: Juliana Palermo
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 13x16,5 cm
páginas: 70 páginas
papel offset ahuesado 90g
ano de edição: 2026
edição: 1ª