E se a orelha disser porque não sou olho

Disponibilidade: Brasil/Europa

quis prestar-me à gesta do corpo
a sucessão do cordão que amarra a minha boca
à minha mão
escrever com cuspo
o idioma em contração
real
como a trama da pele.
talvez por ser a verdade que ainda nos resta

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_sobre este livro

A tua imagem a juntar papéis, a erguê-los como paredes e a riscá-los, dias a fio, durante anos, com canetas coloridas roubadas de supermercados. Agora sei, que, ao toque amoroso das tuas mãos, as canetas se faziam tesouras.
Não as tesouras das barbáries, as que nos levam as mães pelo umbigo. Mas as tesouras com que lhes respondes. As tesouras com que, à falta de dentes — poeta desdentada —, recortas versos de folhas caídas que depois colas com cuspo, nos buracos da carne. E tua árvore genealógica brota em copa, como uma nuvem de clorofila e purpurina.
Lembro-me de, numa manhã de Agosto, em Sines, ver-te de touca de natação na cozinha, a recortar cartolinas amarelas, rosa e verdes. A casa é um organismo. Precisa de rotinas de cuidado diário: composição e compostagem — processos biológicos através dos quais as poetas transformam a verdade numa substância semelhante ao solo. O húmus é a “trama da pele”. É um “ainda”, o “ainda” do que é recortado, como um poema ou um desenho. A compostagem e a composição, parto e invenção, são costuras universais. Ligam infinitamente o mundo para o manter vivo. Só elas, as verdades sujas, não morrem.
Compostar e parir são também gestos de vidente. São trabalhos de antecipação. Enquanto actos de fé, acontecem numa espécie de confiança no que depois se tornará visível. As videntes vêem com o ouvido o que espera ser dito para nascer.
Dizias que não podias ter um emprego a tempo inteiro porque precisavas de investigar. Saltavas de sofá em sofá a pensar a infância em Walter Benjamin, qual forma de garantir a subsistência. É que tu começas sempre pela copa: primeiro os papéis, depois o pão. Estavas a ouvir os papéis como mesa posta para o pão. E o pão apareceu. E este livro também. És afecta e devota a tudo quanto te brilha no peito. Cumpres esse destino que, quando deixamos de brincar passamos a temer, ou antes, a deixar de ouvir. Mas tu não.
Sentada a meu lado no degrau do canteiro, nosso posto secular de observação e costura, na Avenida de Berna, disseste que estes poemas te eram próximos e que talvez fosse mais importante dar a ler coisas que nos sustentassem os dias.
Irmã, tu mostras como é preciso que não nos roubem o peito e o saco das lágrimas a caminho de casa. Qual política que não seja a dos nossos dias?
Não perder as pedras, as pernas, remendos de perdas, e o pedido das mães. Cantar às casas ao passar, e em jeito de provocação, subir a saia, mostrar-lhes as musculadas pedras, as perdas, maiores, mais rijas, medidas em tempo geológico. Lançá-las aos retratos familiares e mostrar-lhes a verdade de vidro. Chegar ao quarto, já sem uma ou outra veia do nariz, sem dente nenhum, recortar e oferecer. Preservar a vontade musical. E um caderno aberto sobre a cabeça, como um telhado.
Raquel Luís

 

_outras informações

ISBN: 978-85-7105-407-3
revisão: Victor Negri
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 13x16,5 cm
páginas: 106 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2026
edição: 1ª

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