Vivemos, é sabido, a era das migrações em massa, um tempo de sujeitos deslocados e subjetividades em permanente (re)construção. O Brasil, durante tanto tempo figurado como espaço edênico, produziu também seus degredados, aqueles que, por força das desigualdades sociais, de gênero e etnia, foram expulsos do alegado paraíso e fizeram as malas em busca de algo melhor. Mas, na ordem global, a seta que aponta o destino dos brasileiros em trânsito termina por mirar em um futuro rimado com clandestinidade.
Nessa rima torta, eles muitas vezes se deparam com hostilidade e franca violência. Desse tema (e problema) fascinante partem as reflexões de Allysson Casais para indagar sobre as figurações do brasileiro pobre em viagens transnacionais. O pesquisador bem sabe que para pensar um assunto tão complexo é preciso recalcular rotas e buscar novos repertórios, por isso lança mão da própria experiência pessoal, do olhar do cinema, da canção nacional, e, claro, da literatura brasileira.
A partir dela e do romance Estive em Lisboa e lembrei de você (2009), de Luiz Ruffato, Casais investiga com sagacidade os trânsitos para fora e também dentro do espaço urbano, assim como as estratégias narrativas adotadas pelo escritor mineiro para transformar em linguagem o que é da ordem da errância. O trabalho desdobra questões extratextuais, como a desterritorialização, a cidadania e os modos de pertencimento, e tópicos intratextuais, pensando a oralidade do discurso de personagens como Serginho, protagonista do relato rufattiano.
O estudo comporta um duplo movimento: analisa com vigor e clareza a literatura brasileira contemporânea e, por outro lado, reflete sobre um tema atual, o do deslocamento neste planeta conflagrado por guerras, conflitos e discursos que situam a figura do estrangeiro como inimigo. Acusado inúmeras vezes de roubar postos de trabalho e violar regras locais, tornando-se um estorvo dentro da cultura alheia, o estrangeiro na verdade nos ensina uma importante e cotidiana lição, a do convívio com a diferença.
De modo simbólico, Casais também se desloca e devolve o tão sonhado passaporte ao sujeito expatriado, dando a ele um lugar mais matizado em nosso imaginário. Trabalha com menos clichê e mais sutileza. O gesto não é pequeno; assim como o talento do autor para articular discussões fundamentais de nossa época.
Stefania Chiarelli