Esse ardor memorioso
repousado no corpo em demência.
Meu pai era militar. Minha mãe, dona de casa.
A ramagem exposta que alarda.
A casca dura que ampara a seiva.
Em casa havia uma arma escondida.
Estava vertida lá no fundo.
O que ainda provém?
Várias vezes peguei nesta arma.
Você também já não me olha como antes.
A recusa aprisionada no descanso do passado.
O filho gay. O desalinhado.
Corrosão nas vértebras dessa cidade
que também não me vê,
descobrindo os alicerces esfalfados
do precipício.
(Voragem, pág. 50)
R$50,00
_sobre este livro
Na Ética, Baruch Espinosa entende por afeto o modo como afetamos e somos afetados pelo mundo. Os afetos são forças de existir e de agir. Para o filósofo a alegria é um afeto que exprime a passagem de um estado de menor perfeição para um de maior perfeição; e a tristeza é um afeto que exprime a passagem de um estado de maior perfeição para um de menor perfeição. A partir da tristeza e da alegria, surgem novos afetos. Sendo forças, não se sujeitam a ideias ou vontades, apenas a outros afetos mais fortes e opostos. Difíceis afetos, de Jean Sartief, é um contramovimento. Uma afirmação da vida: Esse ardor memorioso repousado no corpo em demência./ Meu pai era militar. Minha mãe, dona de casa./ A ramagem exposta que alarda./ A casca dura que ampara a seiva./ Em casa havia uma arma escondida./ Estava vertida lá no fundo./ O que ainda provém?/ Várias vezes peguei nesta arma./ Você também já não me olha como antes./ A recusa aprisionada no descanso do passado./ O filho gay. O desalinhado./ Corrosão nas vértebras dessa cidade que também não me vê,/ descobrindo os alicerces esfalfados/ do precipício. Em “Voragem”, afeto e tempo misturam-se. O poeta recupera imagens e revela experiências. Passado e presente fundem-se e mostram como o tempo e o afeto operam na feitura do poema. A poesia reinaugura novas possibilidades de vida: Muitas vezes tenho a certeza/ que os poemas/ guardam a vida/ mais que o próprio poeta. A palavra é o que fica, o que salva. […] No último fólio, está lá o desenho do coração entre os ossos/ e a caveira demarcando o fim ainda que a esperança seja uma promessa,/ um sopro de ar que se atreve a refrear a violência porque há a poesia. Há a poesia?
Se o tempo é o que se prolonga, o que dura, diz Sartief : No princípio era a minha bisavó faminta/ atravessando um mar sem refúgio com sua roda da fortuna./ Hoje, a contagem dos passos em falso. A zanga. Aqui, o tempo é como um raio encadeando o poema. Palavra lâmina, palavra em movimento. Tempo da palavra, visualidades. A torre atingida por um raio.
Este livro é raio, lâmina, imagem, desejo, vida, lugar nenhum: Ela disse que depois que eu me assumi já não podia ser seu parente./ Esse trauma emocional./ Esse sobressalto de não avançar para lugar algum… O raio afeta o mundo? O afeto, raio do mundo? Quase inverno e as folhas dançam foragidas./ No chão alguém desenhou um coração partido./ A senhora de caros sapatos azuis passa por cima sem se importar. A poesia é corte, frestas.
Elizabeth Olegário
Investigadora do CHAM (FCSH NOVA) e doutoranda em Estudos Portugueses (NOVA)
_outras informações
isbn: 978-85-7105-209-3
revisão: Victor Negri
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 13x16,5 cm
páginas: 72 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª