Até onde a maldade de nossos antepassados molda a nossa própria loucura?
Situado entre o início do século XX e o isolamento da pandemia, e tendo como cenário principal uma Instituição Psiquiátrica Pública, o médico protagonista e narrador de Corpo Vazado é ao mesmo tempo o sintoma e a cura, o doente e o médico. Ele tenta compreender e investigar a própria loucura através de um rigor metodológico que envolve as ciências da saúde e as exatas.
O livro apresenta um retrato cru de um Brasil espoliado e marcado por cicatrizes que atravessam o tempo. Cristiano E. C. Bernardes articula um estilo consolidado, onde a precisão linguística e o ritmo alucinante conduzem o leitor por uma trama de opressões e silêncios.
A narrativa mergulha numa genealogia de sofrimento iniciada por um patriarca que engravida a própria neta, cujas ações ecoam por gerações de homens e mulheres que tentam, em vão, domesticar o caos da mente. Uma das teses desta obra parece tão perturbadora quanto brilhante: a ideia de que na fagulha de uma perversidade ancestral reside a origem da patologia mental.
Através de uma prosa poética e sinestésica, com vozes múltiplas que se confundem entre delírios e diagnósticos, o autor explora o “mal-sculino” e as estruturas coloniais que moldam o sofrimento psíquico do brasileiro. O livro estabelece um embate fascinante: de um lado, o esforço masculino de dominação através da lógica; de outro, a presença cíclica e lúdica das mulheres, sintetizada na repetição obsessiva da palavra “mãe”, que atravessa o texto como um fio condutor de cuidado e desamparo.
Evocando diálogos com mestres como Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, Bernardes convida o leitor a desvendar mapas mentais complexos por entre as frestas da história brasileira que resiste ao esquecimento. Entre o realismo das relações de classe e o simbolismo fantástico de animais como o urutau e o gato mosqueado — remetendo ao clima de agouro de Edgar Allan Poe —, a narrativa assume uma densidade que desafia a lógica e explora os limites do inconsciente.
Corpo Vazado reconhece a impotência diante da história já vivida impondo-se como resistência, e expõe o trauma numa reflexão profunda sobre as heranças que carregamos e a urgência de as nomear.
Rochele Bagatini